E se tudo o que conseguimos ver do poder de Deus for apenas a borda dos seus caminhos? Em Jó 26, depois de responder com ironia à ajuda inútil de Bildade, Jó ergue um dos mais belos hinos à grandeza de Deus em toda a Bíblia. Ele contempla o domínio do Senhor sobre a morte, os céus, o mar e a criação, e conclui que tudo isso é só um leve sussurro do seu verdadeiro poder.
Neste estudo de Jó 26, veremos a resposta irônica de Jó aos amigos que nada o ajudaram, e depois o seu louvor à majestade de Deus, que sustenta a terra sobre o nada, domina as forças do caos e mantém a ordem de toda a criação. É um capítulo que nos convida a nos calar diante de um Deus grande demais para ser compreendido.
>>> Inscreva-se em nosso Canal no YouTube
A ironia de Jó diante da ajuda de Bildade (Jó 26.1-4)
Jó abre a sua resposta com ironia mordaz. Ele havia sido tratado por Bildade como alguém fraco, impotente e sem sabedoria, e agora devolve as palavras com sarcasmo: como ajudaste o que não tem força? Como salvaste o braço que não tem vigor? Como aconselhaste o que não tem sabedoria? Toda a suposta ajuda dos amigos não amparou, não fortaleceu e não deu qualquer conselho útil.
Jó pergunta ainda de onde vinham aquelas palavras e que espírito as inspirava, deixando claro que o discurso de Bildade não tinha valor algum. Como ele já dissera antes, os amigos eram médicos que nada valem e consoladores molestos, que só sabiam repetir chavões sobre o destino dos ímpios e a impureza do homem, sem tocar de fato na dor de quem sofria.
O domínio de Deus sobre toda a criação (Jó 26.5-13)
A partir daqui, Jó mostra que conhece a majestade de Deus muito melhor que os seus amigos. Ele começa pelo mundo dos mortos: diante de Deus, até os mortos tremem, e o Sheol está descoberto perante ele, e a Destruição não tem cobertura. Nada, nem mesmo o lugar mais profundo e escondido, escapa ao domínio e ao olhar de Deus.
Jó contempla então os céus e a terra. Deus estende o norte sobre o vazio e suspende a terra sobre o nada. Ele prende as águas nas suas nuvens densas, sem que elas se rompam, e cobre a face do seu trono. Traçou um limite circular sobre a superfície das águas, na fronteira entre a luz e as trevas. São imagens grandiosas de um Deus que ordena e sustenta o universo inteiro.
Por fim, Jó fala do poder de Deus sobre as forças do caos. As colunas dos céus tremem e se espantam com a sua repreensão. Com o seu poder, ele aquietou o mar; com a sua sabedoria, feriu a Raabe, o monstro que representava o caos. Pelo seu sopro os céus ficam límpidos, e a sua mão traspassou a serpente veloz. Deus reina soberano sobre tudo o que os antigos temiam como forças incontroláveis do mal.
Apenas as bordas dos seus caminhos (Jó 26.14)
Depois de toda essa contemplação, Jó chega a uma conclusão humilde e impressionante: eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos, e quão pouco é o que temos ouvido dele. Tudo o que ele descreveu, o domínio sobre a morte, os céus, o mar e o caos, é somente a franja externa das obras de Deus, um leve sussurro do seu poder.
E se isso é apenas a borda, quem poderia compreender o trovão do seu pleno poder? Jó reconhece que estamos tão distantes de Deus que percebemos apenas um eco fraco da sua atuação. Diante de tamanha grandeza, o mais sábio não é explicar Deus, como faziam os amigos, mas se calar em reverência diante daquele que é maior do que tudo o que a nossa mente pode conter.
Como Jó 26 aponta para Cristo
O Deus que suspende a terra sobre o nada e sustenta os céus é o mesmo que, em Cristo, se revela como aquele por quem e para quem todas as coisas foram criadas. O Novo Testamento ensina que o Filho sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. A majestade que Jó apenas vislumbrou nas bordas ganha rosto em Jesus, o Verbo pelo qual o universo veio a existir.
O domínio de Deus sobre a morte e o Sheol, que Jó descreve em Jó 26, aponta para a vitória de Cristo sobre a morte. Aquele diante de quem os mortos tremem desceu ele mesmo à morte e ressuscitou, tirando o seu poder e trazendo à luz a vida e a imortalidade. Em Cristo, o Sheol descoberto diante de Deus é também um domínio conquistado, pois ele tem as chaves da morte e do inferno.
E a derrota das forças do caos, representadas por Raabe e pela serpente, aponta para a vitória de Cristo sobre o mal. Assim como Deus feriu o monstro do caos, Jesus, na cruz, esmagou a cabeça da antiga serpente e desarmou os poderes das trevas. O poder incompreensível que Jó só ouviu como um sussurro se manifestou plenamente na cruz e na ressurreição, para a nossa salvação.
Três lições de Jó 26 para hoje
Contemple a grandeza de Deus e ganhe perspectiva
Jó ergue os olhos da sua dor para a majestade de Deus sobre toda a criação. Contemplar a grandeza do Senhor não elimina o sofrimento, mas o coloca em perspectiva, lembrando-nos de que estamos nas mãos de alguém imensamente poderoso e sábio. Somos chamados a olhar para além dos nossos problemas e a nos maravilhar diante do Deus que sustenta o universo e cuida de nós.
Reconheça que só conhecemos as bordas de Deus
Jó admite que tudo o que sabemos de Deus é apenas a orla dos seus caminhos, um sussurro do seu poder. Essa humildade nos guarda da arrogância dos amigos, que achavam ter Deus explicado. Somos chamados a confiar naquilo que Deus revelou e a descansar no mistério do que não entendemos, sabendo que a sua sabedoria é infinitamente maior que a nossa.
Confie no Deus que domina até o caos
Jó descreve Deus dominando o mar revolto e as forças do caos que os antigos tanto temiam. Nada está fora do seu controle, nem mesmo aquilo que nos parece incontrolável. Somos chamados a confiar que o mesmo Deus que aquieta o caos da criação também governa o caos da nossa vida, e que nenhuma tempestade escapa ao seu poder e à sua sabedoria.
Perguntas frequentes sobre Jó 26
Em Jó 26, Jó responde a Bildade com ironia, mostrando que a ajuda dos amigos foi inútil. Em seguida, ergue um hino à majestade de Deus, descrevendo o seu domínio sobre a morte e o Sheol, sobre os céus e a terra suspensa no nada, e sobre as forças do caos, representadas por Raabe. Ao final, conclui que tudo isso é apenas a borda dos caminhos de Deus.
É uma das imagens grandiosas do poder de Deus no capítulo: ele sustenta a terra sem apoio visível, pendurada sobre o vazio. Alguns leitores notam como essa descrição antiga soa coerente com o que a ciência só reconheceria muito depois. O ponto principal, porém, é teológico: Deus sustenta toda a criação apenas pelo seu poder.
Raabe é o nome de um monstro marinho que, na cultura do antigo Oriente, representava as forças do caos e da desordem. Ao dizer que Deus feriu a Raabe e traspassou a serpente veloz, Jó afirma que o Senhor reina soberano sobre tudo o que os povos temiam como forças incontroláveis do mal. Deus está acima de todo caos.
Em Jó 26.14, depois de descrever o imenso poder de Deus, Jó reconhece que tudo isso é só a franja externa das obras divinas, um leve sussurro do seu poder. Estamos tão distantes de Deus que percebemos apenas um eco fraco da sua grandeza. A conclusão é de humildade: Deus é maior do que tudo o que a nossa mente pode compreender.
O Deus que sustenta a criação aponta para Cristo, por quem tudo foi feito e que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. O domínio sobre a morte e o Sheol aponta para a vitória de Jesus, que ressuscitou e tem as chaves da morte. E a derrota das forças do caos aponta para Cristo, que na cruz esmagou a antiga serpente e venceu o mal.
Referências
- BÍBLIA. Almeida Revista e Corrigida (ARC). Sociedade Bíblica do Brasil.
- WALTON, John H. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento.
- ZUCK, Roy B. Comentário do conhecimento bíblico: Antigo Testamento (seção de Jó).