Poucas perguntas separam tanto os cristãos quanto esta: a fé se baseia somente na Bíblia, ou também na tradição da Igreja? Católicos e protestantes respondem de formas diferentes, e entender esse debate ajuda você a saber por que crê no que crê, e a dialogar com honestidade com quem pensa diferente.
O que está em jogo?
A questão não é se a Bíblia tem autoridade. Todos os lados concordam que tem. A pergunta é se ela é a única autoridade final, ou se a tradição da Igreja caminha ao lado dela como uma segunda fonte de revelação. E isso depende de uma pergunta anterior: como sabemos quais escritos são a Palavra de Deus? O debate sobre quem decide o que é certo crer começa exatamente aqui.
O debate ganhou intensidade na Reforma Protestante do século XVI. Quando Martinho Lutero foi pressionado a recuar de suas posições no Concílio de Worms (1521), respondeu que só poderia se retratar se fosse convencido pela Escritura ou pela razão clara, não por papas e concílios, que tinham contradito uns aos outros ao longo da história. Essa declaração tornou-se o grito de guerra intelectual da Reforma.
A posição protestante: sola Scriptura
A Reforma resumiu sua convicção numa expressão latina: sola Scriptura, “somente a Escritura”. A ideia é que a Bíblia é a norma final que julga todas as outras autoridades, concílios, tradições, papas e teólogos. Quando há conflito, a Escritura decide.
O texto central nessa posição é 2 Timóteo 3.16-17: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (ARC). Note o alcance da afirmação: a Escritura é suficiente para tornar o servo de Deus “perfeitamente instruído para toda boa obra”. A suficiência da Escritura é parte integrante do princípio.
Um cuidado importante: sola Scriptura nunca significou nuda Scriptura, a Bíblia sozinha sem nenhuma referência ao passado. Os reformadores liam os pais da Igreja, valorizavam os credos antigos e respeitavam a tradição. O que afirmavam é que tudo isso fica sujeito ao julgamento das Escrituras, a tradição é uma voz a ser ouvida, não um árbitro a ser obedecido sem escrutínio bíblico.
A posição católica: Escritura e Tradição
A Igreja Católica, especialmente após o Concílio de Trento (1545-1563), definiu que a revelação chega até nós por duas vias que formam um único depósito da fé: a Escritura e a Tradição apostólica, ambas interpretadas e guardadas pelo Magistério, o ensino oficial da Igreja. O texto mais citado nesse contexto é o apelo de Paulo para que os crentes guardassem as tradições recebidas “seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Tessalonicenses 2.15, ARC), indicando que haveria ensinamentos apostólicos transmitidos de forma oral.
Historicamente, os historiadores identificam duas formas de entender a relação entre Escritura e tradição. Na primeira, chamada às vezes de “Tradição I”, a tradição é simplesmente a interpretação fiel da própria Escritura, transmitida de geração em geração. Os pais da Igreja leram e explicaram o texto bíblico; essa leitura acumulada é a tradição. Na segunda forma, “Tradição II”, a tradição traz conteúdos que não estão explicitamente nas Escrituras, mas que teriam sido revelados aos apóstolos e transmitidos pela Igreja. Boa parte do desacordo está exatamente aqui: a tradição interpreta a Escritura, ou a complementa?
Uma distinção que ajuda
Vale lembrar que o próprio Jesus criticou tradições humanas que esvaziavam a Palavra de Deus: “Rejeitando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens” (Marcos 7.8, ARC). Isso não significa que toda tradição seja ruim, Jesus respeitava e cumpria aspectos legítimos da tradição judaica. Mas significa que a tradição pode se desviar, e por isso precisa ser constantemente verificada à luz das Escrituras.
Esse critério está na base do que significa discernir o que é certo crer, um tema desenvolvido em ortodoxia e heresia. Uma tradição que confirma e aprofunda a Escritura é uma aliada. Uma tradição que a contradiz ou a substitui levanta uma bandeira amarela.
O que isso muda na sua vida?
Saber onde está a sua autoridade final muda a forma como você toma decisões sobre o que crer. Para o cristão evangélico, a pergunta diante de qualquer ensino é direta: isso está de acordo com a Escritura? Não “meu pastor disse”, não “a minha denominação ensina”, mas: o que diz o texto?
Esse é o teste que a Reforma devolveu às mãos do povo de Deus. E, para aplicar esse teste, é preciso conhecer a Bíblia, não apenas de forma superficial, mas com método e profundidade. Tudo isso começa por entender como Deus se dá a conhecer.
Para se aprofundar
Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, cap. 6 (As fontes da teologia: a tradição).
Louis Berkhof, Teologia Sistemática, seção introdutória sobre as Escrituras.
Quer estudar a Bíblia com método e profundidade? Conheça os materiais em lp.jesuseabiblia.com.