O que é a Confissão de Fé de Westminster e por que ela importa?

De todos os documentos produzidos pela Reforma, poucos tiveram tanta influência quanto a Confissão de Fé de Westminster. Para milhões de cristãos reformados ao redor do mundo, e para boa parte dos presbiterianos no Brasil, ela é a referência de como entender a fé cristã de forma organizada.

O contexto: uma assembleia em tempos de guerra

Em 1643, em meio à guerra civil inglesa entre o rei Carlos I e o Parlamento, os parlamentares convocaram uma assembleia de teólogos e ministros para reorganizar a Igreja da Inglaterra. Eles se reuniram na Abadia de Westminster, em Londres, num total de 1.163 sessões ao longo de cinco anos. O grupo incluía clérigos anglicanos de inclinação puritana, presbiterianos escoceses e alguns congregacionalistas.

O resultado foi uma série de documentos: a Confissão de Fé (1646), o Catecismo Maior e o Catecismo Menor (ambos de 1647) e a Forma de Governo Eclesiástico. Embora a reforma da Igreja da Inglaterra tenha fracassado politicamente, esses textos foram adotados pela Igreja da Escócia em 1647 e, a partir daí, tornaram-se o padrão doutrinário do presbiterianismo em todo o mundo.

O que ela ensina?

A Confissão de Westminster cobre a teologia reformada em 33 capítulos. De modo significativo, ela começa não por Deus, mas pela Escritura, afirmando a Bíblia como autoridade suprema em matéria de fé e prática. Esse é o princípio do sola Scriptura operando como fundamento metodológico de tudo o que vem depois: só depois de estabelecer qual é a norma, a Confissão trata do Deus que ela revela.

Em seguida, a Confissão trata da Trindade, do decreto eterno de Deus (incluindo a predestinação), da criação, da providência, da queda e do pecado original. Os capítulos centrais desenvolvem a doutrina da salvação: o pacto de obras e o pacto de graça, Cristo como mediador, a fé salvadora, a justificação pela fé somente, a santificação, a perseverança dos santos. Os capítulos finais tratam da Igreja, dos sacramentos, o batismo e a Ceia do Senhor ,, do descanso sabático, do casamento e do estado das almas após a morte.

O Catecismo Menor, pensado para o ensino de crianças e novos convertidos, resume esse ensino em 107 perguntas e respostas. Sua primeira pergunta é inesquecível: “Qual é o fim principal do homem?” A resposta: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e fruí-Lo para sempre.” Em uma frase, está o coração devocional de toda a tradição reformada.

Westminster e a teologia do pacto

Um dos traços distintivos de Westminster é o uso sistemático da teologia do pacto para organizar a história da redenção. A Confissão distingue o pacto de obras (feito com Adão, com obediência perfeita como condição) e o pacto de graça (pelo qual Deus oferece salvação gratuitamente em Cristo, o segundo Adão). Essa estrutura pactal influenciou profundamente a teologia presbiteriana e reformada nos séculos seguintes.

O capítulo sobre a Escritura é especialmente relevante para o debate atual. Westminster afirma que a Bíblia é completa, suficiente e a única regra infalível de fé e prática, posição diretamente ligada à questão de escritura e tradição.

Por que ela importa até hoje?

Westminster se tornou o padrão doutrinário das igrejas presbiterianas no mundo inteiro, nos Estados Unidos, na Escócia, na Coreia do Sul e no Brasil. Sua influência foi tão grande que serviu de base para outras confissões do mesmo século: a Declaração de Savoy (1658, dos congregacionalistas ingleses) e a Confissão Batista de 1689 seguiram de perto sua estrutura, adaptando os capítulos sobre a Igreja e os sacramentos.

Ela também compartilha a teologia da salvação afirmada no Sínodo de Dort, os cinco pontos do calvinismo estão integrados na sua estrutura. Para entender o lugar de Westminster no conjunto das confissões de fé do século XVII, e para pensar na relação entre confissões e Bíblia, veja o artigo as confissões competem com a Bíblia?

Para se aprofundar

Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, cap. 3 (As confissões de fé; as obras de teologia sistemática).

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