Entre os batistas de tradição reformada, há um documento que ocupa lugar especial: a Confissão Batista de Fé de 1689. Ela mostra como um grupo de cristãos buscou unir a herança da Reforma com convicções próprias sobre o batismo e a Igreja, e permanece altamente relevante nas discussões teológicas do presente.
De onde ela veio
Para entender a Confissão de 1689, é preciso distinguir dois tipos de batistas na Inglaterra do século XVII. Os “batistas gerais” tinham teologia arminiana (graça resistível, expiação universal, possibilidade de perda da salvação). Os “batistas particulares” eram calvinistas, crendo na expiação particular e na preservação dos eleitos, e foi esse segundo grupo que produziu as grandes confissões batistas.
Em 1644, os batistas particulares de Londres publicaram sua primeira confissão, demonstrando publicamente que compartilhavam a ortodoxia reformada das demais igrejas protestantes. Décadas depois, em meio a crescente perseguição religiosa na Inglaterra, um grupo ampliado de igrejas batistas particulares preparou uma confissão mais elaborada, seguindo de perto a Confissão de Westminster (1646) e a Declaração de Savoy (1658) dos congregacionalistas.
Embora o texto já circulasse antes, ele foi publicado abertamente em 1689, logo após a Lei de Tolerância Religiosa do rei Guilherme III, que deu às comunidades dissidentes relativa liberdade de culto. O documento ficou conhecido como Segunda Confissão de Londres ou simplesmente Confissão Batista de 1689.
O que ela compartilha com Westminster?
Na maior parte do conteúdo, a Confissão de 1689 segue de perto a Confissão de Westminster: a autoridade suprema e suficiência da Escritura como regra de fé e prática (capítulo 1), a doutrina da Trindade, a teologia do pacto, a doutrina reformada da graça e da salvação, a centralidade de Cristo como único mediador. Quem lê as duas lado a lado percebe o parentesco teológico imediato.
A teologia do pacto ocupa lugar central: a Confissão de 1689 distingue o pacto de obras (com Adão) e o pacto de graça (em Cristo), estruturando a história da redenção em torno da fidelidade de Deus às suas promessas. Os cinco pontos do calvinismo, afirmados no Sínodo de Dort, estão integrados na sua teologia da salvação.
Onde ela se distingue?
As diferenças em relação a Westminster aparecem principalmente em dois pontos. O primeiro é o batismo: a Confissão de 1689 entende que o batismo deve ser administrado apenas a quem professa pessoalmente a fé em Cristo, o chamado batismo de crentes (ou “batismo por imersão de professantes”). Para os batistas, o Novo Testamento não autoriza o batismo de infantes.
O segundo ponto é o governo da Igreja, que a Confissão de 1689 define como congregacional: cada congregação local é autônoma e governa seus próprios assuntos sob a autoridade de Cristo. Westminster, por outro lado, pressupõe o modelo presbiteriano, com um sistema de concílios e presbitérios regionais.
Essas diferenças são reais e importantes, mas não envolvem a doutrina da salvação, e convém tratá-las com respeito, já que envolvem cristãos igualmente comprometidos com a Escritura. A questão específica do batismo merece um estudo à parte.
Sua importância hoje
Após séculos de relativo esquecimento, a Confissão de 1689 voltou a ganhar força a partir do movimento batista reformado do século XX, especialmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. Pastores e teólogos passaram a redescobrir a riqueza da tradição batista particular e a adotá-la como padrão doutrinário. No Brasil, o movimento chegou sobretudo a partir dos anos 1990 e tem crescido de forma significativa.
Hoje, a Confissão de 1689 é a base doutrinária de muitas igrejas batistas reformadas no Brasil e no mundo. Ela integra o grande conjunto de confissões de fé do século XVII, ao lado de Westminster e dos Cânones de Dort, e continua a servir como instrumento de ensino, unidade e identidade para igrejas que buscam ser fiéis ao evangelho da graça. Para pensar na relação entre esses documentos e a Bíblia, veja: as confissões competem com a Bíblia?
Para se aprofundar
Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, cap. 3 (As confissões de fé; a doutrina da igreja).
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