As confissões de fé competem com a Bíblia?

“Não preciso de confissão nenhuma, a minha regra é só a Bíblia.” Essa frase é comum em muitas igrejas, e expressa uma preocupação sincera: será que as confissões de fé não acabam competindo com a Escritura, ou até colocando tradições humanas no lugar dela? É um debate antigo, e que merece ser ouvido dos dois lados com seriedade.

O argumento de quem rejeita as confissões

Para muitos cristãos, especialmente em tradições que valorizam o lema “nenhum credo além da Bíblia”, as confissões representam um risco. Eles temem que documentos humanos ganhem autoridade indevida, engessem a leitura da Escritura ou substituam a fé viva por fórmulas decoradas. A intenção é nobre: proteger a soberania única da Palavra de Deus.

Esse lema ganhou forma institucional no Movimento de Restauração do século XIX, liderado por Alexander Campbell e Barton Stone nos Estados Unidos. Para eles, as divisões entre os protestantes vinham das confissões humanas, e a solução era abandonar todos os credos e voltar diretamente à Bíblia. A proposta era atraente, mas gerou um paradoxo: sem confissão formal, as igrejas desenvolviam posições doutrinais igualmente definidas, só que não escritas, e portanto mais difíceis de debater e corrigir.

O risco do “somente a Bíblia” sem confissão não é inventado: há igrejas que repetem certas interpretações com a mesma rigidez que criticam nas tradições confessionais, apenas sem o benefício da transparência que um documento escrito oferece.

O argumento de quem defende as confissões

Os defensores das confissões respondem que um documento confessional nunca esteve acima da Bíblia, mas sempre abaixo dela, como um resumo organizado do que a própria Escritura ensina. Sua função é ensinar, unir a Igreja e proteger contra erros que podem ser muito sutis para ser detectados sem um padrão doutrinário claro.

Eles lembram também que a própria Escritura valoriza a transmissão fiel do ensino. Paulo orienta Timóteo a guardar “o modelo das sãs palavras” que ouviu (2 Timóteo 1.13, ARC), e afirma que “toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja perfeito” (2 Timóteo 3.16-17, ARC). Judas exorta os cristãos a batalhar “pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3, ARC). Resumir, guardar e transmitir a fé não é novidade humana, é um cuidado bíblico.

Há ainda um argumento histórico: as igrejas que sobreviveram às grandes heresias não foram as que “só usavam a Bíblia” sem qualquer estrutura doutrinária, mas as que articularam com clareza o que criam, como nos Concílios de Niceia (325) e Calcedônia (451). As confissões do século XVII foram exatamente isso: o esforço coletivo de articular a fé com precisão diante de controvérsias reais.

Onde está o equilíbrio?

O ponto de encontro está numa distinção simples: a Bíblia é a norma normans (a norma que normatiza), e a confissão é uma norma normata (norma normatizada), sempre sujeita à correção do texto sagrado. Usada assim, a confissão serve à Escritura, ensinando, unindo a Igreja e protegendo contra o erro.

O perigo aparece quando a confissão é tratada como intocável, acima de qualquer revisão à luz da Bíblia. A tradição reformada tem um princípio para isso: ecclesia reformata, semper reformanda secundum Verbum Dei, “a Igreja reformada, sempre se reformando segundo a Palavra de Deus”. Uma confissão saudável convida à revisão, não a proíbe. A própria Confissão de Westminster foi revisada pela Igreja Presbiteriana nos Estados Unidos em 1789, ajustando capítulos sobre o papel do Estado na Igreja.

No fundo, este é o mesmo debate sobre autoridade que aparece em a Bíblia basta? e em escritura e tradição. Entender o lugar das confissões de fé ajuda a valorizá-las sem nunca colocá-las no trono que pertence só à Palavra. Uma boa confissão é uma serva fiel da Escritura, não sua rival.

Para se aprofundar

Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, cap. 6 (As fontes da teologia: a tradição) e cap. 3 (As confissões de fé).

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