A expressão “teologia liberal” é jogada por aí muitas vezes como xingamento, usada para rotular qualquer ideia com a qual não concordamos. Mas ela nomeia um movimento real, específico e de enorme influência, com data de nascimento, fundadores e uma trajetória clara. Entender de onde veio a teologia liberal e como ela se desenvolveu ajuda a compreender por que a tradição evangélica a vê como um perigo sério, e também a ser justo com a preocupação legítima que lhe deu origem.
O que é teologia liberal, de verdade?
Aqui “liberal” não tem a ver com política. No campo teológico, a palavra descreve um modo de fazer teologia que coloca a experiência humana, a razão ou a cultura de cada época como o filtro pelo qual a Bíblia e a doutrina são julgadas. Em vez de a Escritura ter a palavra final sobre o que é verdadeiro, ela passa a ser avaliada e adaptada conforme aquilo que o mundo moderno considera aceitável. Essa inversão de autoridade, sutil no começo, é o coração de tudo o que se segue. É o oposto do princípio tratado em A Bíblia basta?
A origem: o Iluminismo e Schleiermacher
A teologia liberal nasceu da pressão do Iluminismo. A partir do século XVIII, a razão humana foi entronizada como o tribunal final de tudo, e os milagres, a ressurreição e o sobrenatural passaram a ser tratados com desconfiança. A fé cristã se viu encurralada: como sobreviver num mundo que parecia ter deixado de acreditar no sobrenatural? Essa é a mesma tensão tratada em fé e razão são inimigas?
A resposta mais influente veio de Friedrich Schleiermacher (1768-1834), muitas vezes chamado de pai da teologia liberal. Para escapar do ataque racionalista, ele deslocou o centro da religião. A fé não estaria fundada em doutrinas reveladas nem em provas racionais, mas num sentimento, mais precisamente, no sentimento de absoluta dependência de algo maior que nós. A intenção era nobre: salvar a religião num tempo hostil. Mas o preço foi alto. Se a essência da fé é uma experiência interior, então as doutrinas deixam de ser verdades reveladas por Deus e passam a ser apenas tentativas humanas de expressar essa experiência. A Bíblia deixa de ser a voz de Deus e vira o registro da experiência religiosa de um povo.
O desenvolvimento no século XIX
A partir de Schleiermacher, o movimento floresceu. Albrecht Ritschl deslocou o foco da fé para a ética e para o reino de Deus entendido como uma comunidade moral. Adolf von Harnack, estudando a história dos dogmas, propôs descascar o cristianismo de suas formulações antigas até chegar a um suposto núcleo simples: a paternidade de Deus, a fraternidade entre os homens e o valor infinito da alma humana. Tudo o que fosse sobrenatural, milagroso ou doutrinário era visto como casca dispensável.
No mesmo período, surgiu a chamada busca pelo Jesus histórico, que tentava separar o Jesus “real”, um mestre de moral, do Cristo da fé, considerado uma criação posterior da Igreja. Por trás de tudo havia um otimismo enorme: a crença de que a humanidade caminhava, por sua própria conta, rumo a um futuro cada vez melhor. A fé era reinterpretada para caber confortavelmente nesse projeto de progresso.
A crise e as reações
Então veio 1914. A Primeira Guerra Mundial despedaçou o otimismo liberal. A nação considerada mais culta e cristã da Europa mergulhou numa carnificina sem precedentes. Ficou difícil sustentar que a humanidade estava melhorando sozinha. Foi nesse cenário que Karl Barth se levantou contra a teologia em que fora formado, reafirmando a transcendência de Deus e a autoridade da sua Palavra, num movimento que ficou conhecido como neo-ortodoxia. A teologia liberal, porém, não desapareceu. Ela se transformou, reaparecendo em projetos como a tentativa de “desmitologizar” o Novo Testamento e, nos anos 1960, até em correntes que falavam na “morte de Deus”.
A teologia liberal no presente
O nome envelheceu, mas o método continua bem vivo. Ele reaparece sempre que as convicções de uma época são colocadas acima da Escritura. Vemos isso quando a ressurreição corporal, o nascimento virginal ou o caráter sacrificial da morte de Cristo são reinterpretados como meros símbolos. Vemos quando a busca por relevância faz a igreja moldar a sua mensagem ao gosto do momento, em vez de submetê-la à Palavra. E vemos numa religiosidade difusa, terapêutica, que fala muito em bem-estar e quase nada em pecado, cruz e arrependimento. Não se trata de apontar dedos a pessoas ou rotular indivíduos, mas de reconhecer uma tendência que atravessa os séculos.
Onde está o perigo?
O perigo da teologia liberal pode ser resumido em quatro movimentos. O primeiro é a troca de autoridade: quando o espírito da época julga a Bíblia, é a época que passa a governar a fé, e a fé perde o seu fundamento. O segundo é o esvaziamento do evangelho: se a ressurreição é apenas um símbolo, a fé fica vazia. Paulo foi categórico: “se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé” (1 Coríntios 15.17). Reinterpretar o milagre central do cristianismo até ele virar metáfora é, na prática, anunciar outro evangelho, contra o qual o apóstolo já advertia (Gálatas 1.6-9).
O terceiro perigo é a acomodação à cultura. Costuma-se dizer que uma fé que se casa com o espírito de uma época logo fica viúva na época seguinte. Ao comprar relevância à custa de fidelidade, a igreja perde justamente aquilo que tinha de único para oferecer ao mundo. O quarto é o otimismo ingênuo sobre o ser humano. Ao minimizar a realidade do pecado, a teologia liberal construiu uma casa que os horrores do século XX derrubaram. A Escritura é mais realista: reconhece a profundidade do mal humano e, por isso mesmo, a necessidade real de um Salvador.
Sendo justo com o outro lado
Apontar o perigo não significa demonizar quem o seguiu. A teologia liberal nasceu de uma preocupação legítima: manter o cristianismo de pé e em diálogo num tempo em que a ciência e a crítica pareciam ameaçar a fé. Muitos de seus pioneiros eram sinceros e queriam servir à Igreja. A lição, portanto, não é o medo das perguntas nem o anti-intelectualismo, porque a fé não teme a razão. O erro não foi pensar, foi colocar a experiência e a cultura no lugar que pertence à revelação. É possível, e necessário, dialogar com o mundo sem se conformar a ele, como também mostra o debate sobre como Marx via a religião.
A salvaguarda
A proteção contra esse perigo não é fechar os olhos para o mundo, mas manter a âncora no lugar certo. É reconhecer, com o profeta, que “a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Isaías 40.8), batalhar “pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3) e viver no mundo sem se moldar a ele (Romanos 12.2). A teologia liberal nos ensina, pelo avesso, uma verdade preciosa: no instante em que a Palavra deixa de ser a autoridade final, tudo o mais começa a se desfazer. Conhecer essa história é uma forma de guardar o coração e a fé.
Para se aprofundar
- Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica — cap. 4 (A Idade Moderna: o Iluminismo; o protestantismo liberal; a neo-ortodoxia).
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