Jeremias 36 conta como o rei Jeoaquim tentou destruir a palavra de Deus e falhou. Por ordem do Senhor, Jeremias dita a Baruque um rolo com todas as suas profecias, que é lido publicamente no templo, depois diante dos oficiais e, por fim, diante do rei. Coluna após coluna, Jeoaquim corta o rolo com um canivete e o queima no braseiro, sem qualquer temor. Mas Deus manda escrever tudo de novo, e ainda acrescenta muitas palavras. O capítulo mostra que dá para rejeitar e queimar a palavra de Deus, mas não para calá-la.
Quando leio este capítulo, o contraste que mais me marca é entre Jeoaquim e o pai dele, Josias. Josias rasgou as vestes ao ouvir a Lei; Jeoaquim rasgou o rolo e queimou a palavra. E me pergunto o que faço quando a palavra de Deus me confronta: se me humilho ou se tento apagá-la.
Qual é o contexto histórico e teológico de Jeremias 36?
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Neste estudo você vai ver:
- Por que Deus mandou escrever as profecias num rolo.
- Como o rolo foi lido ao povo, aos oficiais e ao rei.
- Por que Jeoaquim queimou o rolo e o que aconteceu depois.
- Como o capítulo aponta para a palavra eterna de Deus.
O capítulo recua no tempo para o quarto ano de Jeoaquim, por volta de 605 a.C. Nabucodonosor acabara de vencer os egípcios em Carquemis, e o “inimigo do norte” que Jeremias anunciava havia décadas finalmente se aproximava de Judá.
Depois de cerca de 23 anos de pregação, Deus manda registrar por escrito todas as palavras do profeta. O rolo se tornaria um testemunho permanente, capaz de continuar falando mesmo quando Jeremias estava proibido de entrar no templo. Este estudo dá sequência ao capítulo 35 e prepara o capítulo 37.
O Comentário Histórico-Cultural observa que registrar uma profecia por escrito era uma forma de torná-la efetiva, e que cortar e queimar um documento funcionava como um ritual para tentar anular o seu poder. Era exatamente isso que Jeoaquim pretendia fazer.
Como se desenvolve a análise do texto bíblico em Jeremias 36?
A escrita do rolo (36.1-4)
Deus ordena a Jeremias que escreva num rolo todas as palavras faladas contra Israel, Judá e as nações, desde os dias de Josias. O objetivo é declarado logo no versículo 3: “porventura ouvirá a casa de Judá todo o mal… e se converterá cada um do seu mau caminho”.
Mesmo depois de tanta resistência, ainda havia uma última nota de esperança: se o povo se arrependesse, Deus perdoaria a iniquidade e o pecado. A palavra escrita seria mais um apelo à conversão.
Jeremias então chama Baruque, filho de Nerias, escriba de profissão, e lhe dita as palavras enquanto ele as escreve no rolo. A pregação oral se transforma em documento duradouro.
O rolo lido ao povo (36.5-10)
Jeremias estava impedido de entrar no templo, por isso encarrega Baruque de ler o rolo no lugar dele. A leitura deveria acontecer num dia de jejum, quando muita gente das cidades de Judá estaria reunida em Jerusalém.
O Comentário Histórico-Cultural nota que esse jejum não fazia parte do calendário religioso comum, mas era convocado em emergências. Provavelmente foi motivado pelo avanço do exército babilônico, que havia tomado a cidade filisteia de Ascalom.
No quinto ano de Jeoaquim, Baruque lê o rolo na câmara de Gemarias, filho de Safã, junto à Porta Nova, de onde o povo no átrio podia ouvir. A família de Safã, ligada à reforma de Josias, era simpática à mensagem do profeta.
O rolo lido aos oficiais (36.11-19)
Micaías, neto de Safã, ouve a leitura e leva a notícia aos oficiais reunidos no palácio. Eles mandam chamar Baruque, que lê o rolo uma segunda vez, agora diante deles.
A reação dos oficiais é de alarme: eles se entreolham atemorizados. O medo não era do conteúdo, já conhecido havia anos, mas de ver a mensagem posta por escrito e do que o rei faria ao saber disso.
Sabendo do perigo, eles orientam Baruque a se esconder junto com Jeremias e a não revelar onde estavam. Muitos desses oficiais eram filhos dos conselheiros de Josias e queriam proteger o profeta.
O rolo lido ao rei (36.20-26)
Os oficiais guardam o rolo e relatam tudo ao rei, que manda buscá-lo. Jeudi começa a ler o rolo diante de Jeoaquim, que estava na casa de inverno, no mês nono, com um braseiro aceso à sua frente.
À medida que Jeudi lia três ou quatro colunas, o rei as cortava com um canivete de escrivão e as lançava no fogo, até consumir todo o rolo. Era um gesto calculado de desprezo, uma tentativa de anular a palavra do profeta.
O contraste com Josias é gritante: nem o rei nem os seus servos se atemorizaram nem rasgaram as vestes. Elnatã, Delaías e Gemarias pediram que o rei não queimasse o rolo, mas ele não os ouviu e ainda mandou prender Baruque e Jeremias. O texto acrescenta que o Senhor os havia escondido.
O rolo reescrito (36.27-32)
A palavra de Deus não pode ser destruída pela mão humana. Depois de o rei queimar o rolo, o Senhor manda Jeremias tomar outro e escrever nele tudo o que estava no primeiro, num paralelo com as tábuas da Lei reescritas por Moisés.
Contra Jeoaquim vem a sentença: ele não teria descendente firmado no trono de Davi, e o seu cadáver ficaria exposto ao calor do dia e à geada da noite. Rejeitar a palavra de Deus como um problema político, e não como um chamado ao arrependimento, o levou ao juízo.
Baruque então escreve um segundo rolo ditado por Jeremias, e o texto diz que “ainda se lhes acrescentaram muitas palavras semelhantes”. A tentativa de silenciar Deus resultou numa palavra ainda maior. O que o fogo do rei consumiu, a fidelidade de Deus reescreveu.
Como Jeremias 36 se conecta com Cristo e o evangelho?
O grande tema do capítulo é a permanência da palavra de Deus, e isso aponta diretamente para Cristo. Jeremias 36 se conecta com o evangelho de várias maneiras.
- A palavra que permanece: o rolo queimado e reescrito antecipa a verdade de que a palavra do Senhor permanece para sempre (1 Pedro 1.25).
- A palavra que não se prende: homens podem ser presos e documentos queimados, mas a palavra de Deus não está algemada (2 Timóteo 2.9).
- Cristo, a Palavra: toda palavra profética culmina naquele que é o Verbo de Deus feito carne (João 1.1 e 1.14).
- Rejeitar a palavra tem consequência: assim como Jeoaquim, quem rejeita a palavra será julgado por ela no último dia (João 12.48).
- A palavra que leva ao arrependimento: o rolo foi escrito para que o povo se convertesse, o mesmo propósito da pregação do evangelho (Romanos 10.17).
Quais são as lições espirituais e aplicações práticas de Jeremias 36?
Quando medito neste capítulo, três realidades me confrontam. A primeira é que a palavra de Deus não pode ser silenciada. Podemos ignorá-la, rasgá-la ou queimá-la, mas ela permanece e cumpre o seu propósito.
A segunda é o alerta do coração endurecido. Jeoaquim ouviu a mesma palavra que levou Josias ao arrependimento, mas reagiu com desprezo. O problema nunca foi a clareza da mensagem, e sim a dureza de quem a ouve.
A terceira é o valor de servos fiéis nos bastidores. Baruque escreveu, leu e arriscou-se, e os oficiais protegeram o profeta. Deus usa pessoas comuns e fiéis para preservar e proclamar a sua palavra.
Fica aqui uma palavra para quem ministra e para quem ouve: a nossa tarefa é sermos fiéis em anunciar e receber a palavra, sabendo que ela não volta vazia. O rei queimou o rolo, mas a palavra do Senhor está de pé até hoje.
Perguntas frequentes sobre Jeremias 36
O capítulo mostra que a palavra de Deus não pode ser silenciada. O rei Jeoaquim queimou o rolo com as profecias de Jeremias, mas Deus mandou reescrever tudo e ainda acrescentou muitas palavras. Dá para rejeitar a palavra de Deus, mas não para anulá-la.
Baruque, filho de Nerias, era um escriba profissional que serviu a Jeremias. Ele escreveu o rolo ditado pelo profeta e o leu publicamente no templo, diante do povo e dos oficiais, arriscando a própria segurança. Impressões de selos com o seu nome sugerem que era escriba da corte.
Jeoaquim rejeitou a palavra por vê-la como uma ameaça política, já que anunciava a vinda do rei da Babilônia. Ao cortar e queimar o rolo, ele executava um gesto de desprezo que funcionava como tentativa de anular a profecia. Diferente de seu pai Josias, não se humilhou.
Deus mandou Jeremias escrever outro rolo com todas as palavras do primeiro, e ainda acrescentou muitas outras. Contra Jeoaquim veio a sentença de que não teria descendente firmado no trono e que o seu corpo ficaria exposto sem sepultura digna.
O capítulo ensina que a palavra de Deus permanece e cumpre o seu propósito, mesmo quando é rejeitada. Ele alerta contra o coração endurecido que despreza a mensagem e valoriza os servos fiéis que preservam e anunciam essa palavra.
Referências
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
MACKAY, John L. Jeremias. São Paulo: Cultura Cristã, 2018. Disponível em: https://amzn.to/3NemwXf.
WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2018. Disponível em: https://amzn.to/4w5iBxP.