Jeremias 5 apresenta uma das cenas mais impressionantes de todo o livro: Deus manda percorrer as ruas de Jerusalém em busca de uma única pessoa que pratique a justiça, e a busca fracassa. Ao ler esse capítulo, eu percebo que ele funciona como uma espécie de processo judicial.
Enquanto os capítulos vizinhos se concentram na devastação que o invasor causará, como vimos no estudo de Jeremias 4, o capítulo 5 responde a uma pergunta incômoda: o julgamento que vem é justo? A resposta do texto é um sim doloroso, demonstrado caso a caso, da população comum aos líderes, dos tribunais ao templo.
Qual o contexto histórico de Jeremias 5?
O livro de Jeremias registra o ministério do profeta nos últimos anos do reino de Judá, entre as reformas do rei Josias e a queda de Jerusalém. Não é simples datar este capítulo com precisão. John Mackay pondera que as condições descritas se encaixam bem num período de reforma religiosa externa: a idolatria havia sido oficialmente suprimida, mas o povo não tinha compromisso real com a aliança no dia a dia.
Nessa leitura, Jeremias teria pregado esta mensagem por volta de 615 a.C., ainda no reinado de Josias, como um esforço para aprofundar uma reforma que estava ficando só na superfície (MACKAY, 2018).
Esse detalhe muda a forma de ler o capítulo. Jeremias 5 não descreve uma sociedade abertamente pagã, mas uma sociedade religiosa por fora e rebelde por dentro. O povo jurava pelo nome do Senhor, frequentava o culto e, ao mesmo tempo, vivia como se Deus não existisse. É exatamente essa distância entre aparência e coração que o capítulo expõe.
Esboço de Jeremias 5
O capítulo se divide em três grandes seções:
- A busca por um justo (5.1 a 9)
- Julgamento, mas não destruição completa (5.10 a 19)
- O fracasso do coração (5.20 a 31)
Existe um justo em Jerusalém? (Jeremias 5.1 a 9)
O capítulo abre com uma ordem surpreendente: “Dai voltas às ruas de Jerusalém, e vede agora; e informai-vos, e buscai pelas suas praças, a ver se achais alguém ou se há um homem que pratique a justiça ou busque a verdade; e eu lhe perdoarei a ela” (Jeremias 5.1, ARC).
O leitor atento lembra imediatamente de Gênesis 18, quando Abraão intercedeu por Sodoma e Deus prometeu poupar a cidade se nela houvesse dez justos, como vimos no estudo de Gênesis 18. Aqui a exigência é ainda menor: basta um.
Mackay (2018) observa que o convite à inspeção é amplo, quase público, como se Deus abrisse a cidade santa para auditoria diante de todos, inclusive dos próprios moradores.
E o alvo da busca é específico. As duas qualidades procuradas, praticar a justiça (mishpat) e buscar a verdade (emunah, a fidelidade prática), não descrevem religiosidade de fachada, mas uma vida conduzida segundo as exigências da aliança, nos negócios, nos tribunais e nas relações.
O versículo 2 mostra por que a busca fracassa: “E ainda que digam: Vive o Senhor, de certo, todavia, juram falsamente” (Jeremias 5.2, ARC). O povo usava o vocabulário da fé para cometer perjúrio. O termo hebraico sheqer, falsidade, é uma das palavras favoritas de Jeremias para descrever palavras e ações sem base na realidade. A religião virou verniz sobre a fraude.
Nos versículos 3 a 5, o próprio profeta tenta encontrar atenuantes. Talvez o problema estivesse só nos pobres, gente sem instrução, que não conhecia “o caminho do Senhor”. Então Jeremias vai aos grandes, aos líderes que conheciam perfeitamente a vontade de Deus. O resultado é pior: “mas estes, de comum acordo, quebraram o jugo e romperam as ataduras” (Jeremias 5.5, ARC). Quem mais sabia era quem mais deliberadamente se rebelava.
A imagem do jugo quebrado retrata animais que se recusam a servir ao dono; aplicada ao povo da aliança, descreve uma nação que aceitou a forma da reforma de Josias, mas rejeitou o seu espírito (MACKAY, 2018).
Por isso o versículo 6 anuncia o leão, o lobo e o leopardo rondando as cidades. A tríplice imagem provavelmente não distingue inimigos diferentes, mas expressa a totalidade do julgamento que viria pelo inimigo do norte.
Vale notar que feras devastadoras eram exatamente uma das maldições previstas na aliança para a desobediência persistente (Levítico 26.21 e 22).
A seção fecha com duas perguntas retóricas que ecoam pelo capítulo inteiro (versículo 9, repetido no 29): deixaria Deus de castigar estas coisas? A santidade divina não pode fingir que não vê. Um Deus que tolerasse indefinidamente a quebra da aliança deixaria de ser fiel a si mesmo.
Por que o julgamento não seria completo? (Jeremias 5.10 a 19)
A segunda seção usa a figura da vinha, imagem clássica de Israel na Escritura (Isaías 5.1 a 7; Salmos 80.8). Deus ordena que os invasores subam aos renques de videiras e os devastem, tirando os ramos que não pertencem ao Senhor.
Mas há um limite explícito: “não façais uma destruição final” (Jeremias 5.10, ARC). A poda será severa, o toco e as raízes permanecem.
Mackay (2018) destaca que essa reserva não é um enxerto posterior ao texto, como alguns críticos sugerem, mas decorre da própria natureza da aliança: a desobediência do povo traz a maldição prometida, porém não anula o compromisso de Deus (Levítico 26.44). É a mesma lógica do remanescente que atravessa todo o livro.
Os versículos 12 e 13 registram o que o povo dizia de Deus: “Não é ele; e não nos sobrevirá mal algum, nem veremos espada ou fome” (Jeremias 5.12, ARC).
Não era ateísmo teórico, era ateísmo prático: Deus existe, mas não age, portanto pode ser ignorado. Os profetas verdadeiros, na avaliação popular, não passavam de “vento”.
A resposta divina no versículo 14 é uma das mais fortes do capítulo: “eis que converterei as minhas palavras na tua boca em fogo, e a este povo, em lenha, e eles serão consumidos” (Jeremias 5.14, ARC).
O povo tratou a palavra profética como vento; Deus a revela como fogo. Há aqui um consolo escondido para o próprio Jeremias: sua mensagem, tão desprezada, carregava o poder do Deus dos Exércitos.
Os versículos 15 a 17 descrevem a nação que virá de longe, antiga, robusta, de língua incompreensível, cuja aljava é “como sepulcro aberto”.
A linguagem ecoa deliberadamente Deuteronômio 28.49 a 52, a maldição da aliança anunciada por Moisés séculos antes, como detalhamos no estudo de Deuteronômio 28.
O texto não nomeia o inimigo, e Mackay (2018) lembra que isso é profecia, não análise política: no momento da pregação, a identidade babilônica ainda não precisava estar clara.
A repetição quádrupla do verbo comer no versículo 17 (comerão a sega, os filhos, os rebanhos, a vide) pinta um invasor que devora a terra por completo.
A seção termina com a pergunta que os sobreviventes farão no exílio: por que o Senhor nos fez tudo isto?
E a resposta prepara o princípio da correspondência entre pecado e castigo: “Como vós me deixastes e servistes a deuses estranhos na vossa terra, assim servireis a estranhos, em terra que não é vossa” (Jeremias 5.19, ARC).
Quem escolheu deuses estrangeiros em casa servirá estrangeiros fora dela. Note o que não é dito: em nenhum momento Deus declara “eu vos abandonarei”. O julgamento é esmagador, mas a aliança permanece.
Por que o coração do povo falhou? (Jeremias 5.20 a 31)
A terceira seção vai à raiz do problema. O povo é descrito como “insensato, sem coração, que tem olhos e não vê, que tem ouvidos e não ouve” (Jeremias 5.21, ARC), a mesma linguagem que os Salmos usam para os ídolos (Salmos 115.5 a 7).
A ironia é devastadora: quem adora deuses cegos e surdos acaba parecido com eles.
O versículo 22 apresenta um contraste tirado da criação: o mar, símbolo antigo do caos indomável, respeita o limite de areia que Deus lhe impôs; as ondas bramem, mas não o ultrapassam.
Judá, o povo da aliança, ultrapassava os limites de Deus todos os dias. Até a natureza obedece melhor do que o povo escolhido.
E o versículo 24 acrescenta a chuva: as primeiras chuvas do outono, as últimas da primavera e as semanas determinadas da sega eram provisões regulares do Senhor, mas o povo não dizia no coração “temamos ao Senhor”.
Por isso o versículo 25 conclui que as próprias iniquidades deles desviaram essas bênçãos, provável referência à seca daquele período (Jeremias 3.3; 14.1 a 6).
Os versículos 26 a 28 descem ao concreto: dentro do povo de Deus havia ímpios agindo como passarinheiros, armando laços para caçar homens.
Suas casas estavam cheias de engano como gaiolas cheias de pássaros, e assim enriqueceram e engordaram.
O sinal mais claro da corrupção era jurídico: “não julgam a causa do órfão… nem julgam o direito dos necessitados” (Jeremias 5.28, ARC).
Na comunidade da aliança, a proteção do órfão, da viúva e do pobre era teste básico de fidelidade (Deuteronômio 24.17; 27.19). Os tribunais de Jerusalém falhavam exatamente nele.
O capítulo encerra com um diagnóstico em três camadas que resume o livro inteiro: “Os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam pelas mãos deles, e o meu povo assim o deseja” (Jeremias 5.31, ARC).
Profetas mentindo, sacerdotes coniventes e, o detalhe mais trágico, um povo que gostava que fosse assim.
Mensagens agradáveis davam popularidade aos líderes e conforto aos ouvintes.
A pergunta final fica ecoando: “que fareis ao fim disto?”. Um sistema religioso inteiro construído sobre a mentira tem prazo de validade.
O que Jeremias 5 ensina para hoje?
Jeremias 5 antecipa uma verdade que o Novo Testamento tornará explícita. A busca por um justo em Jerusalém fracassou, e Paulo, citando os Salmos, universaliza o veredito: “Não há um justo, nem um sequer” (Romanos 3.10, ARC), tema que exploramos no estudo de Romanos 3.
A cidade que não tinha um justo aponta para a humanidade que não tem nenhum, e prepara o evangelho: o único Justo que a busca de Deus encontraria viria dele mesmo, Jesus Cristo, que foi consumido pelo juízo no lugar do seu povo para que o “não vos destruirei de todo” se cumprisse em graça plena.
O capítulo também confronta a religiosidade de fachada. Judá tinha reforma, culto e juramento no nome certo, e não tinha coração.
Vale a pergunta pessoal: minha fé regula meus negócios, minha palavra e meu tratamento dos vulneráveis, ou é verniz sobre a mesma vida de todo mundo?
E há um alerta para quem ensina e para quem ouve: a mentira religiosa só prospera onde o povo “assim o deseja”. Igrejas recebem, em boa medida, a pregação que toleram.
Por fim, Jeremias 5 consola. Mesmo no capítulo mais duro, Deus limita o próprio juízo: não de todo. A disciplina do Senhor sobre os seus nunca é a palavra final; é o caminho doloroso de volta para casa.
Referências
MACKAY, John L. Jeremias. Tradução: Vagner Barbosa. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2018. v. 1. (Comentários do Antigo Testamento).
Bíblia Sagrada. Almeida Revista e Corrigida. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil.