O que fazer quando a esperança parece se apagar e só a sepultura parece esperar por nós? Em Jó 17, Jó conclui a sua resposta a Elifaz num tom sombrio. Depois do lampejo de confiança numa testemunha celestial, ele mergulha de novo no desespero, sentindo a morte próxima e o abandono dos amigos. Mesmo assim, ele continua apelando a Deus como o único que pode ser o seu fiador. É um capítulo sobre a fé que persiste mesmo quando a esperança some.
Neste estudo de Jó 17, veremos o pedido de Jó por um penhor, um fiador diante de Deus, o seu sofrimento ao se tornar objeto de escárnio, e o desespero final em que ele contempla a sepultura como a sua única morada. É um capítulo sobre a dor de quem se sente sem saída, mas que, mesmo no fundo do poço, ainda dirige o seu clamor a Deus.
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O pedido por um fiador (Jó 17.1-5)
Jó sente que a sua vida se consome, os seus dias se apagam e a sepultura o espera. Abatido e cercado de zombadores, ele faz um pedido comovente a Deus: dá-me um penhor, sê tu mesmo o meu fiador, pois quem mais apertaria a mão comigo para garantir a minha causa? A expressão remete ao costume antigo de selar um acordo apertando as mãos, e ao penhor dado como garantia num processo. Só Deus poderia oferecer essa garantia a Jó.
Esse arranjo era necessário porque os amigos estavam cegos quanto à sua inocência e até o denunciavam, na esperança de serem recompensados por supostamente defenderem a causa de Deus. Jó reconhece a triste ironia: em vez de amigos que apertassem a sua mão em solidariedade, ele tinha acusadores. Diante do abandono humano, ele se volta para Deus, o único capaz de ser o seu fiador diante do tribunal.
Objeto de escárnio (Jó 17.6-9)
Jó lamenta que se tornou um provérbio entre os povos, um homem em cujo rosto se cospe, gesto de profundo desprezo no mundo antigo. A sua dor era tão intensa que os seus olhos se escureciam de mágoa, e ele estava reduzido a uma sombra do que fora. O sofrimento havia marcado tanto o seu corpo quanto a sua reputação, expondo-o à zombaria de todos.
E, no entanto, mesmo nesse fundo do poço, surge uma nota de firmeza. Jó afirma que qualquer pessoa reta ficaria horrorizada diante do tratamento absurdo que ele recebia, e insinua que os seus adversários não eram justos. E declara que o justo se manterá firme no seu caminho, e o de mãos puras crescerá cada vez mais em força. Em meio ao desespero, Jó ainda se agarra à convicção da sua integridade diante de Deus.
O desespero e a sepultura (Jó 17.10-16)
Jó desafia os amigos a tentarem de novo encontrar erro nele, sabendo que não conseguiriam, pois não havia sabedoria entre eles. A sua vida se esvaía, e os seus planos e desejos ficavam sem realização. A promessa dos amigos de que a luz voltaria, condicionada ao seu arrependimento, parecia a Jó irrealista. Ele não via mais motivo para esperar restauração nesta vida.
Com imagens sombrias, Jó descreve a sepultura como a sua única casa: estendeu a sua cama nas trevas, disse à corrupção que ela era o seu pai, e ao verme que era a sua mãe e a sua irmã. E então lança a pergunta angustiada: onde está, então, a minha esperança? A esperança que os amigos lhe ofereciam desceria com ele ao pó. Assim termina a sua resposta, num tom de profundo desânimo, mas com o clamor ainda dirigido a Deus, o único fiador possível.
Como Jó 17 aponta para Cristo
O pedido de Jó de que Deus fosse o seu fiador aponta para Cristo, que se tornou o fiador de uma aliança melhor. Onde Jó clamava por uma garantia que ninguém lhe dava, Jesus é aquele que se ofereceu como penhor da nossa salvação, garantindo a nossa causa diante de Deus. O Novo Testamento declara que Jesus se tornou fiador de um pacto superior, assegurando aquilo que nós jamais poderíamos assegurar por nós mesmos.
O escárnio sofrido por Jó, que se tornou provérbio e em cujo rosto se cuspia, aponta para Cristo, que também foi objeto de zombaria e desprezo. Isaías profetizou que o servo do Senhor não escondeu o rosto dos que cuspiam nele, e os evangelhos mostram Jesus sendo escarnecido e cuspido na sua paixão. O justo Jó, humilhado injustamente, prenuncia o Justo perfeito, que suportou a maior humilhação por amor a nós.
E o desespero de Jó diante da sepultura aponta, por contraste, para Cristo, que desceu à morte e a venceu. Onde Jó via na sepultura o fim de toda esperança, chamando a corrupção de pai, Jesus transformou a sepultura em passagem para a vida. Pela sua ressurreição, a pergunta de Jó, onde está a minha esperança, encontra a resposta definitiva: a nossa esperança está viva em Cristo, que aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade.
Três lições de Jó 17 para hoje
Apele a Deus quando os homens falham
Diante do abandono dos amigos, Jó pediu que o próprio Deus fosse o seu fiador. Quando as pessoas nos decepcionam ou nos abandonam, Deus continua sendo o nosso refúgio seguro. Somos chamados a não colocar toda a nossa esperança nos homens, mas a nos voltar para Deus, que jamais falha, e a confiar que, mesmo quando ninguém aperta a nossa mão, ele garante a nossa causa e cuida de nós.
A fé pode conviver com o desespero
Jó oscila mais uma vez entre um lampejo de firmeza e o mergulho no desespero, mas nunca deixa de apelar a Deus. Ter momentos de desânimo profundo não significa ter perdido a fé. Somos chamados a entender que a vida de fé nem sempre é linear, e que é possível estar no fundo do poço e, ainda assim, continuar clamando a Deus. O importante é não soltar a mão dele, mesmo quando o coração desfalece.
Ancore a esperança para além da sepultura
Jó perguntou onde estava a sua esperança ao contemplar a sepultura, pois ainda não conhecia a vitória sobre a morte. Nós, porém, conhecemos a resposta em Cristo. A nossa esperança não termina no túmulo, mas se estende à vida eterna. Somos chamados a ancorar o coração nessa certeza, enfrentando as perdas e a própria morte com a esperança viva daquele que venceu o sepulcro e nos garante a ressurreição.
Perguntas frequentes sobre Jó 17
Em Jó 17, Jó conclui a sua resposta a Elifaz num tom sombrio. Ele pede que Deus seja o seu fiador diante do tribunal, lamenta ter se tornado objeto de escárnio, com o rosto cuspido, e mergulha no desespero, contemplando a sepultura como a sua única morada e perguntando onde estaria a sua esperança.
Jó pediu que o próprio Deus fosse o seu fiador, oferecendo uma garantia da sua causa diante do tribunal, já que nenhum amigo apertava a sua mão em solidariedade. A imagem remete ao costume antigo de selar acordos apertando as mãos e ao penhor dado como garantia. Só Deus poderia oferecer essa segurança a Jó.
Jó se tornara um provérbio entre os povos e um homem em cujo rosto se cuspia, gesto de profundo desprezo. O seu sofrimento havia marcado o corpo e a reputação, expondo-o à zombaria de todos, inclusive dos que deveriam consolá-lo. Ele lamentava esse tratamento absurdo, insinuando que os seus adversários não eram justos.
Jó mergulhou num profundo desespero, chegando a chamar a corrupção de seu pai e a perguntar onde estava a sua esperança diante da sepultura. Ainda assim, ele não abandonou o apelo a Deus, pedindo que o próprio Deus fosse o seu fiador. A sua fé oscilava, mas continuava dirigida ao Senhor, mesmo no fundo do desânimo.
O pedido de Jó por um fiador aponta para Cristo, que se tornou fiador de uma aliança melhor e garante a nossa causa. O escárnio sofrido por Jó aponta para Jesus, que foi cuspido e humilhado por nós, e o desespero diante da sepultura aponta, por contraste, para Cristo, que venceu a morte e é a nossa esperança viva.
Referências
- BÍBLIA. Almeida Revista e Corrigida (ARC). Sociedade Bíblica do Brasil.
- WALTON, John H. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento.
- ZUCK, Roy B. Comentário do conhecimento bíblico: Antigo Testamento (seção de Jó).