Existe uma pessoa que você não consegue perdoar? Um nome que, só de lembrar, aperta o peito? Você já tentou, orou, decidiu soltar, e a mágoa voltou. Talvez o problema não seja falta de vontade, e sim não entender o que Jesus realmente ensinou sobre o perdão.
Saber como perdoar quem te feriu é uma das batalhas mais difíceis do coração cristão, e em Mateus 18:21-35 Jesus a enfrenta de frente. Depois de falarmos sobre o sofrimento, este é o tema do Dia 15.
“Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Disse-lhe Jesus: Não te digo que até sete, mas até setenta vezes sete.”
A matemática do perdão
Pedro achava generoso perdoar sete vezes; os rabinos ensinavam três. Jesus responde “setenta vezes sete” não como número literal, mas para dizer: pare de contar. No momento em que você conta as ofensas, você não está perdoando, está esperando o limite estourar com a consciência limpa. Isso é mágoa disfarçada de espiritualidade.
Em seguida, Jesus conta a parábola do servo que devia dez mil talentos ao rei, o equivalente a dezenas de milhares de anos de salário, uma dívida impossível, e foi totalmente perdoado. Esse mesmo servo, então, agarra um colega que lhe devia cem denários, cerca de cem dias de trabalho, e o joga na prisão. A proporção é brutal e proposital: o que fizeram contra você, comparado ao que foi perdoado a você diante de Deus, é cem contra centenas de milhares. O perdão cristão não nasce do mérito do outro, mas da consciência de quanto você já foi perdoado, “como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Efésios 4:32).
O que o perdão não é
Boa parte da dificuldade vem de uma confusão sobre o que perdoar significa. Como observou C.S. Lewis, todos acham o perdão uma bela ideia até terem algo concreto para perdoar. Perdão bíblico não é dizer que o que fizeram foi aceitável, nem minimizar a dor: Deus leva o pecado tão a sério que enviou o Filho à cruz por causa dele. Também não é esquecer, e não é, necessariamente, restaurar o relacionamento.
Aqui entra uma distinção vital: perdão e reconciliação são coisas diferentes. O perdão é unilateral, você solta independentemente da resposta do outro; a reconciliação exige arrependimento e mudança, e nem sempre é possível ou sábia. Em casos de abuso, violência ou relações destrutivas, você pode perdoar e, ainda assim, manter distância segura. O perdão liberta você por dentro; a distância protege você por fora. Perdoar, no fundo, é entregar a Deus o direito de cobrar a dívida: “minha é a vingança, diz o Senhor” (Romanos 12:19). Enquanto você não solta, quem continua preso é você.
3 passos para começar a perdoar
- Nomeie. Escreva o nome da pessoa e o que ela fez, sem suavizar. Só se cura aquilo que se reconhece ferido.
- Entregue. Em oração, diga: “Senhor, essa pessoa me feriu; hoje eu solto o direito de cobrar e coloco essa dívida nas Tuas mãos. Tu és o Juiz justo; eu não preciso ser”.
- Repita. Perdão costuma ser processo, não um momento. Quando a mágoa voltar, não é sinal de que falhou; é a memória trabalhando. Volte a soltar. O “setenta vezes sete” também vale para você.
O perdão não nasce da sua força, mas da graça passando através de você. No app Jesus e a Bíblia, o estudo de hoje traz o exercício “A Carta do Perdão”, escrita a Deus e nunca enviada. O conteúdo aqui no site continua gratuito.
- “Setenta vezes sete” significa parar de contar ofensas (Mateus 18:22).
- O perdão nasce da consciência de quanto fomos perdoados (Efésios 4:32).
- Perdão não é aprovar, esquecer nem necessariamente reconciliar; em casos de abuso, é possível perdoar e manter distância segura.
- Três passos: nomear, entregar a Deus (Romanos 12:19) e repetir quando a mágoa voltar.
Perguntas frequentes
Como perdoar quem me feriu?
Reconhecendo a ofensa com sinceridade, entregando a Deus o direito de cobrar a dívida (Romanos 12:19) e repetindo essa entrega sempre que a mágoa voltar. O perdão nasce da consciência de quanto Deus já nos perdoou (Efésios 4:32), não do mérito do ofensor.
Perdoar é o mesmo que reconciliar?
Não. O perdão é unilateral e liberta você por dentro; a reconciliação exige arrependimento do outro lado e nem sempre é possível ou segura. Em casos de abuso, é possível perdoar e manter distância.
O que significa “setenta vezes sete”?
Em Mateus 18:22, não é um número literal, mas uma forma de Jesus dizer para parar de contar as ofensas. Perdão verdadeiro não guarda um limite a partir do qual a pessoa “pode explodir”.
Preciso voltar a conviver com quem me feriu?
Nem sempre. Perdoar não anula a sabedoria nem a segurança. Você pode soltar a mágoa diante de Deus e ainda assim manter limites e distância, especialmente em relações abusivas ou destrutivas.
Referências bibliográficas
Bíblia Sagrada, tradução João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida (ARC). Citações de Mateus 18:21-35; Efésios 4:32; Romanos 12:19. TEN BOOM, Corrie. O Esconderijo. LEWIS, C.S. Reflexões sobre os Salmos.
Escrito por Diego Nascimento, bacharel em Teologia e mestrando no Gordon-Conwell Theological Seminary. Conheça o autor →
Continue o discipulado:
- Estudo anterior: Dia 14, Por que Deus permite o sofrimento
- Próximo estudo: Dia 16, A fé dentro de casa
- Página principal: Discipulado de 30 Dias