O que são as confissões de fé? A era das confissões no século XVII

Se você já ouviu falar da Confissão de Westminster ou da Confissão Batista de 1689, talvez tenha se perguntado: o que exatamente é uma “confissão de fé”? E por que tantas delas surgiram justamente no século XVII? Entender isso ajuda a enxergar como as igrejas protestantes organizaram aquilo que creem, e por que esses documentos ainda importam hoje.

O que é uma confissão de fé?

Uma confissão de fé é um resumo público e organizado daquilo que uma igreja crê, extraído das Escrituras. Não é um livro inspirado nem uma fonte paralela à Bíblia. É mais como um mapa: um documento que reúne, de forma clara e ordenada, o ensino bíblico sobre Deus, a salvação, a Igreja e a vida cristã, para que todos saibam o que aquela comunidade professa.

Paulo exortou Timóteo a “guardar o padrão das sãs palavras” que tinha ouvido (2 Timóteo 1.13, ARC). Uma confissão é exatamente esse esforço coletivo: colocar por escrito, com precisão, o que a comunidade entende que a Escritura ensina, para ensinar, guardar a fé e distinguir o ensino saudável do erro. Judas 3 fala em “batalhar pela fé que uma vez foi entregue aos santos”: uma confissão é uma forma de concretizar essa batalha no campo doutrinal.

Confissão e credo: qual a diferença?

Os credos antigos, como o Credo Apostólico e o de Niceia, são breves, ecumênicos e nascidos na igreja primitiva para responder a heresias trinitárias e cristológicas específicas. Qualquer cristão, católico, ortodoxo ou protestante, pode assinar o Credo Niceno.

As confissões são mais longas, mais detalhadas e produzidas por tradições específicas. Elas não tratam apenas da Trindade e da pessoa de Cristo, mas cobrem soterologia (a doutrina da salvação), eclesiologia (a doutrina da Igreja), os sacramentos ou ordenanças, a lei e o evangelho, a escatologia e a vida cristã. A Confissão de Westminster, por exemplo, tem 33 capítulos. As confissões refletem os debates do pós-Reforma: questões que os credos antigos não precisavam resolver porque ainda não tinham surgido.

Por que o século XVII produziu tantas?

Depois da Reforma, veio um período que os historiadores chamam de confessionalização: as igrejas precisaram definir com precisão o que criam, tanto para se distinguir umas das outras quanto para resolver controvérsias internas. Foi a era da chamada ortodoxia protestante, marcada pelo cuidado em ensinar e guardar a doutrina.

Dentro do próprio protestantismo surgiram divergências importantes sobre a predestinação, o papel da graça e da vontade humana, a natureza da Igreja e a forma de governo eclesiástico. As confissões foram a resposta: documentos cuidadosamente redigidos por assembleias ou sínodos de pastores e teólogos, debatidos versículo por versículo e respaldados por referências bíblicas extensas.

Vale um cuidado: nem toda confissão célebre é seiscentista. A Confissão Belga (1561) e o Catecismo de Heidelberg (1563) são do século XVI, embora tenham sido ratificados no Sínodo de Dort em 1619. O grosso das grandes confissões, Westminster (1646), a Confissão Batista de 1644 e a de 1689, veio no século XVII.

As principais confissões do século XVII

A Confissão de Westminster (1646) foi elaborada por uma assembleia de cerca de 120 ministros convocada pelo Parlamento inglês. É o documento teológico mais influente do presbiterianismo e do calvinismo anglófono até hoje. Seguiram-na o Catecismo Maior e o Catecismo Menor de Westminster, amplamente usados no ensino catequético.

A Confissão Batista de Londres de 1644 foi a primeira grande confissão batista, produzida por igrejas batistas particulares (que criam na expiação particular). Ela demonstrava que os batistas compartilhavam a ortodoxia reformada, diferindo dos paidobatistas apenas no batismo de crentes e no governo congregacional.

A Confissão Batista de 1689 (Segunda Confissão de Londres) aprofundou esse trabalho, seguindo de perto Westminster e adaptada à teologia e eclesiologia batista. Tornou-se o documento fundacional do batismo reformado em todo o mundo.

E a relação com a Bíblia?

As confissões nunca pretenderam substituir a Escritura. Na linguagem clássica, a Bíblia é a norma normans (a norma que normatiza), e a confissão é uma norma normata (norma normatizada), sempre sujeita ao texto sagrado. A autoridade da confissão é derivada: ela vale na medida em que reflete fielmente o que a Escritura ensina.

Na prática, isso significa que qualquer crente ou qualquer assembleia pode revisitar uma confissão à luz da Escritura e corrigi-la se necessário. As confissões são instrumentos de ensino e de unidade, não oráculos. Mas será que, na prática, elas acabam competindo com a Bíblia? Essa pergunta merece um estudo próprio: as confissões competem com a Bíblia? Ela se liga diretamente à questão mais ampla de escritura e tradição.

Para se aprofundar

Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica, cap. 3 (As confissões de fé; a segunda Reforma: confessionalização).

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