Por que a Bíblia católica tem mais livros?

Se você já comparou uma Bíblia evangélica com uma Bíblia católica, talvez tenha levado um susto: a católica tem mais livros. Onde a sua termina o Antigo Testamento com Malaquias, a outra traz nomes que você talvez nunca tenha lido, como Tobias, Judite ou Macabeus.

A pergunta vem naturalmente: alguém tirou livros da Bíblia? Ou alguém acrescentou? E como saber qual está certa?

Vamos por partes, com calma e sem caricatura, porque o assunto é mais sério e mais interessante do que parece.

Quais são os livros “a mais”

A Bíblia católica inclui sete livros que não aparecem na Bíblia evangélica: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico (também chamado de Sirácida), Baruque e os dois livros dos Macabeus. Há ainda trechos adicionais nos livros de Ester e de Daniel.

Esses escritos costumam ser chamados de duas formas diferentes, e o nome já revela a discordância:

  • Os católicos os chamam de deuterocanônicos, ou seja, livros de um “segundo cânon”, reconhecidos como Escritura, ainda que num segundo momento.
  • Os protestantes os chamam de apócrifos, do grego “ocultos” ou “duvidosos”, e os consideram úteis para leitura e história, mas não inspirados no mesmo nível das Escrituras.

Por que os protestantes não os incluem

A posição evangélica não é um capricho recente. Ela se apoia em razões antigas e consistentes:

1. Eles não fazem parte do cânon hebraico. O povo judeu, a quem foram confiadas as Escrituras do Antigo Testamento (Romanos 3.2), nunca reconheceu esses livros como parte da sua Bíblia. E se o Antigo Testamento é a Escritura sagrada de Israel, faz sentido seguir o cânon que o próprio Israel reconheceu.

2. Jesus e os apóstolos não os citam como Escritura. O Novo Testamento cita o Antigo dezenas e dezenas de vezes, com fórmulas como “está escrito”. Nenhuma dessas citações, com autoridade de Escritura, vem dos livros deuterocanônicos.

3. A própria tradição cristã antiga hesitou. Jerônimo, o grande tradutor da Vulgata latina no século IV, distinguia claramente os livros canônicos dos que ele considerava apenas “eclesiásticos”, bons para edificação, mas não para estabelecer doutrina.

4. Alguns desses livros sustentam doutrinas posteriores. Por exemplo, 2 Macabeus 12 é frequentemente usado para defender a oração pelos mortos. Não é difícil entender por que a questão de reconhecer ou não esses livros tem peso teológico, e não apenas histórico.

Sendo justo com o outro lado

Para você conversar sobre isso com maturidade, vale conhecer o argumento católico, não como ameaça, mas como parte honesta do debate.

Os católicos lembram que a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento muito usada no tempo de Jesus, incluía esses livros. Lembram também que vários cristãos antigos os citavam com apreço. E foi no Concílio de Trento, em 1546, em resposta à Reforma Protestante, que a Igreja Católica afirmou oficialmente esses livros como parte do cânon.

A resposta protestante é que o uso de um livro para leitura edificante não é o mesmo que reconhecê-lo como Palavra inspirada, e que a definição oficial de Trento veio justamente como reação à Reforma, séculos depois da Igreja primitiva.

O que fazer com esses livros, então

Aqui vale uma palavra de equilíbrio. Dizer que os apócrifos não são Escritura inspirada não é o mesmo que dizer que são lixo. Eles têm valor histórico real. Os livros dos Macabeus, por exemplo, contam um período crucial entre o Antigo e o Novo Testamento, ajudando a entender o mundo em que Jesus nasceu.

O próprio Lutero traduziu esses livros e os colocou num apêndice da sua Bíblia, com uma observação honesta: são escritos úteis e bons de ler, ainda que não estejam no mesmo nível das Escrituras.

Ou seja: leia com proveito, aprenda com a história, mas não construa doutrina sobre eles.

Voltando ao essencial

No fundo, esta pergunta sobre “livros a mais” faz parte de uma questão maior e mais bonita: como sabemos quais livros são realmente Palavra de Deus? Essa é a história do cânon das Escrituras, e ela mostra que o reconhecimento dos livros sagrados não foi acidente nem imposição, mas um processo guiado.

Se você ainda não leu, recomendo começar por aqui: Quem escolheu os livros da Bíblia? A história do cânon. Lá você entende o quadro completo do qual este assunto faz parte.

E o ponto que aquieta o coração é o mesmo: a Bíblia que você tem nas mãos não é fruto do acaso. É a Palavra que Deus preservou para o seu povo, ontem e hoje.

Para se aprofundar

  • Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica — cap. 6 (As fontes da teologia: outras obras, escritos deuterocanônicos e apócrifos).
  • F. F. Bruce, O Cânon das Escrituras.

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