Quando ninguém na terra defende quem sofre injustamente, há alguém no céu que o faça? Em Jó 16, esmagado pela dor e ferido pelos amigos que deveriam consolá-lo, Jó lança um clamor surpreendente: ele olha para além da terra e afirma ter uma testemunha nos céus, um defensor nas alturas. É um dos vislumbres mais belos do livro, um anseio por um advogado celestial que aponta diretamente para Cristo.
Neste estudo de Jó 16, veremos a queixa de Jó contra os consoladores miseráveis, a sua descrição do sofrimento que interpreta como um ataque de Deus e dos homens, o seu luto profundo, e o clamor comovente por uma testemunha e um fiador nos céus. É um capítulo sobre a dor de ser mal consolado e sobre a esperança de um defensor celestial.
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Os consoladores miseráveis (Jó 16.1-5)
Jó expressa a sua decepção com os amigos: já ouvira muitas coisas como aquelas, e eles nada lhe traziam de novo. Ele os chama de consoladores miseráveis, que em vez de aliviar, agravavam o seu sofrimento com discursos longos e vazios. Jó pergunta o que os levava a continuar atacando, e afirma que, se as posições fossem invertidas, ele também poderia amontoar palavras e menear a cabeça em zombaria.
Mas Jó declara que não faria isso. Ao contrário, se eles estivessem em seu lugar, ele os confortaria com palavras de encorajamento, buscando aliviar a sua dor. É um contraste tocante: Jó, o que sofria, sabia consolar melhor do que aqueles que se diziam seus consoladores. Ele apontava, sem saber, para o tipo de amizade que a dor exige, aquela que fortalece em vez de condenar.
O ataque de Deus e dos homens (Jó 16.6-14)
Jó volta a lamentar o seu tormento. Falasse ou se calasse, a dor permanecia. Ele sentia que Deus o havia esgotado, com a família desolada e o corpo definhado. Com imagens fortes, descreve Deus como uma fera que o dilacera em sua ira e range os dentes contra ele, e como um arqueiro que fez dele o seu alvo, cercando-o de flechas. Deus, diz Jó, era como um guerreiro que corria contra ele, abrindo brecha sobre brecha.
Além do que interpretava como hostilidade divina, Jó também sofria o escárnio dos homens, que se ajuntavam contra ele como um exército. É importante lembrar que, aqui, Jó errava ao atribuir a Deus intenção hostil, pois não conseguia enxergar outra explicação para a sua dor. Ele desconhecia o que se passava nos bastidores do céu. Mesmo assim, dirige toda a sua angústia ao próprio Deus, e não para longe dele.
A dor e o luto de Jó (Jó 16.15-17)
Jó descreve o seu luto: costurou pano de saco sobre a pele, como se fosse ficar de luto pelo resto da vida, e abateu a sua força no pó, como um animal derrotado. De tanto chorar, o seu rosto estava inflamado, e sombras cobriam as suas pálpebras. É o retrato de um homem completamente abatido, cuja dor havia marcado o corpo e a alma.
Ainda assim, em meio ao luto, Jó afirma a sua inocência: não havia violência nas suas mãos, e a sua oração era pura. Ele contesta diretamente a acusação de Elifaz de que era um homem cruel e ímpio. O seu sofrimento permanecia um mistério inexplicável: por que estaria em tamanho tormento, se não era uma pessoa má? Essa tensão o leva ao clamor que vem a seguir.
A testemunha nos céus (Jó 16.18-22)
Jó clama à terra: não cubras o meu sangue, que o meu clamor por justiça não seja sepultado nem esquecido. A imagem lembra o sangue de Abel, que clamava da terra. Ele deseja que a injustiça cometida contra ele seja reivindicada e não fique sem resposta. E então volta os olhos da terra para o céu.
Ali, Jó expressa uma confiança surpreendente: eis que a minha testemunha está nos céus, e o meu fiador nas alturas. Ele anseia por um defensor celestial, um intercessor que argumente a sua causa diante de Deus, já que nenhum mediador humano podia se colocar acima de Deus e do homem. Enquanto os amigos zombavam, os olhos de Jó choravam voltados para Deus, desejando que houvesse quem pudesse pleitear entre o homem e Deus. Esse clamor por uma testemunha celestial é o coração do capítulo, e prepara o famoso eu sei que o meu Redentor vive, que virá adiante.
Como Jó 16 aponta para Cristo
O clamor de Jó por uma testemunha nos céus e um fiador nas alturas aponta diretamente para Cristo, o nosso advogado junto ao Pai. O Novo Testamento declara que temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo, e que ele vive para sempre para interceder por nós. Aquilo que Jó apenas vislumbrava em meio à dor, o defensor celestial que argumentaria a sua causa, cumpriu-se plenamente em Jesus, que se coloca entre nós e Deus.
O desejo de Jó de que o seu sangue não fosse encoberto, clamando por justiça, aponta para Cristo, cujo sangue fala melhor do que o de Abel. Enquanto o sangue de Abel clamava por vingança, o sangue de Jesus clama por perdão e reconciliação. Na cruz, o clamor por justiça e o clamor por misericórdia se encontram: Cristo satisfez a justiça de Deus e, ao mesmo tempo, garantiu a nossa salvação, sendo ele a nossa verdadeira defesa.
E a dor de Jó, mal consolado pelos amigos, aponta para Cristo, o Consolador que nunca falha. Onde os amigos de Jó ofereciam acusação, Jesus se compadece das nossas fraquezas e nos envia o seu Espírito, o Consolador. Ele é o amigo que sofreu conosco e por nós, e que, em vez de agravar a nossa dor, a acolhe e a transforma, trazendo o consolo que só ele pode dar.
Três lições de Jó 16 para hoje
Console de verdade, não com palavras vazias
Jó chamou os amigos de consoladores miseráveis, porque enchiam o ar de discursos que só agravavam a sua dor. O verdadeiro consolo não está na quantidade de palavras, mas na presença amorosa que fortalece. Somos chamados a consolar como Jó dizia que consolaria: com encorajamento e alívio, e não com acusações. Muitas vezes, o melhor consolo é ouvir, estar presente e amar, em vez de multiplicar explicações.
Leve o seu clamor por justiça a Deus
Mesmo interpretando Deus como adversário, Jó não deixou de dirigir a ele o seu pranto e o seu clamor por justiça. A dor não o afastou de Deus; foi a Deus que ele apelou. Somos chamados a fazer o mesmo: levar as nossas dores e as injustiças que sofremos ao Senhor, confiando que ele ouve o nosso clamor e que, no seu tempo, fará justiça, mesmo quando os homens nos abandonam ou nos ferem.
Descanse no seu advogado celestial
Jó ansiava por uma testemunha nos céus, um defensor que argumentasse a sua causa. Nós já temos esse advogado: Jesus Cristo, que intercede por nós diante do Pai. Diante das acusações, dos julgamentos injustos e até das acusações do inimigo, podemos descansar na certeza de que temos um defensor celestial. Somos chamados a confiar em Cristo, o nosso fiador, que garante a nossa causa e nunca deixa de interceder por nós.
Perguntas frequentes sobre Jó 16
Em Jó 16, Jó responde ao segundo discurso de Elifaz. Ele chama os amigos de consoladores miseráveis, descreve o seu sofrimento como um ataque de Deus e dos homens, expressa o seu luto profundo, afirma a sua inocência e clama por uma testemunha nos céus e um fiador nas alturas que defenda a sua causa diante de Deus.
Jó chamou os amigos de consoladores miseráveis porque, em vez de aliviarem a sua dor, eles a agravavam com discursos longos, vazios e acusatórios. O termo expressa a sua decepção com quem deveria confortá-lo, mas só o feria. Jó contrastou essa atitude com o consolo genuíno que ele mesmo ofereceria se as posições fossem invertidas.
A testemunha nos céus é o defensor ou fiador celestial que Jó anseia ter, alguém que argumente a sua causa diante de Deus. Como nenhum mediador humano podia se colocar acima de Deus e do homem, Jó clama por esse advogado nas alturas. Esse anseio aponta para Cristo, o nosso advogado junto ao Pai.
Jó descreveu Deus como uma fera e um arqueiro que o atacava, mas nisso ele errava, pois desconhecia o que se passava nos bastidores do céu e não via outra explicação para a sua dor. Ainda assim, é importante notar que Jó dirigia toda a sua angústia ao próprio Deus, e não para longe dele.
O clamor de Jó por uma testemunha nos céus aponta para Cristo, o nosso advogado que intercede por nós junto ao Pai. O desejo de que o seu sangue não fosse encoberto aponta para o sangue de Jesus, que fala melhor do que o de Abel, e a dor de ser mal consolado aponta para Cristo, o Consolador que nunca falha.
Referências
- BÍBLIA. Almeida Revista e Corrigida (ARC). Sociedade Bíblica do Brasil.
- WALTON, John H. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento.
- ZUCK, Roy B. Comentário do conhecimento bíblico: Antigo Testamento (seção de Jó).