É possível chegar ao fundo do poço e, ali mesmo, encontrar a mais alta expressão de fé? Jó 19 mostra exatamente isso. Abandonado por Deus, pelos amigos, pelos parentes e até pela esposa, reduzido a pele e osso, Jó atinge um dos seus momentos mais sombrios. E é justamente dali que se ergue uma das declarações mais gloriosas de toda a Bíblia: eu sei que o meu Redentor vive. É um capítulo sobre a esperança que brilha na escuridão.
Neste estudo de Jó 19, veremos a queixa de Jó contra os amigos que o afligiam, a sua descrição do abandono total que sentia da parte de Deus e de todos, o seu apelo comovente por compaixão, e o clímax da sua fé: a certeza de que o seu Redentor vive e de que ele mesmo, com os seus próprios olhos, verá a Deus. É um capítulo sobre a esperança no Redentor e na ressurreição.
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A hostilidade dos amigos (Jó 19.1-6)
Jó começa devolvendo a Bildade o seu próprio até quando: até quando afligireis a minha alma e me quebrantareis com palavras? Ele afirma que os amigos já o haviam afrontado dez vezes, uma expressão idiomática para repetidamente, sem vergonha de o maltratarem. Jó argumenta que, mesmo que tivesse errado, o problema seria dele, e não deles, e que eles não tinham o direito de se colocar acima dele.
Mas Jó reconhece a raiz da sua dor: saiba que foi Deus quem me transtornou e me cercou com a sua rede. Mais uma vez, ele atribui a Deus a sua situação, sem conseguir explicá-la de outro modo. Aqui é preciso lembrar que Jó desconhecia os bastidores do céu e a prova a que estava sendo submetido. A sua interpretação era limitada, mas a sua honestidade, absoluta.
O abandono de Deus e de todos (Jó 19.7-22)
Jó descreve o que sentia como a hostilidade de Deus: clamo e não há justiça; ele cercou o meu caminho de trevas, despojou-me da minha honra, arrancou a minha esperança como a uma árvore e me tratou como inimigo, cercando-me como um exército. São imagens de um homem que se sentia sitiado pelo próprio Deus, sem entender por quê. E o comentário lembra: quem de fato era inimigo não era Deus, mas o acusador, que Jó não podia ver.
Ao sofrimento se somava a solidão. Jó lista os que o abandonaram: os irmãos se afastaram, os conhecidos o esqueceram, os parentes e amigos íntimos o repeliram, os servos não lhe respondiam, e até a sua esposa se afastava dele por causa do seu hálito. As próprias crianças o desprezavam. Reduzido a pele e osso, ele diz ter escapado só com a pele dos dentes, uma expressão para escapar por muito pouco da morte. Então faz um apelo comovente: tende compaixão de mim, ó meus amigos, porque a mão de Deus me tocou. Por que me perseguis como Deus?
A certeza de ver a Deus (Jó 19.23-29)
E então, no ponto mais baixo, Jó se ergue ao ponto mais alto. Ele deseja que as suas palavras fossem escritas e gravadas para sempre numa rocha, com buril de ferro e chumbo, uma técnica de inscrição permanente conhecida no mundo antigo, para que as gerações futuras conhecessem a sua causa. E declara: eu sei que o meu Redentor vive, e que por fim se levantará sobre a terra.
A palavra que Jó usa, Redentor, é o goel, o parente-remidor que defendia, vingava e protegia a causa de alguém que não podia defender-se. Jó tinha a certeza de que, mesmo que morresse, o seu Defensor viveria e se levantaria para provar a sua inocência. E vai além, expressando uma esperança que ultrapassa a morte: depois de desfeita a minha pele, ainda em minha carne verei a Deus; eu mesmo o verei, os meus olhos o contemplarão, e não outro. Tão certo estava dessa esperança que dizia desfalecer por dentro só com a expectativa de encontrar Deus. Por fim, adverte os amigos: temam a espada, pois há juízo, e eles poderiam ser os alvos da ira divina por perseguirem um inocente.
Como Jó 19 aponta para Cristo
A declaração de Jó, eu sei que o meu Redentor vive, aponta diretamente para Cristo, o nosso Redentor que de fato vive. Jó ansiava por um goel, um defensor que provasse a sua inocência e o resgatasse; e esse Redentor se revelou plenamente em Jesus, que nos remiu não com prata ou ouro, mas com o seu sangue, e que ressuscitou, vivendo para sempre para interceder por nós. A esperança de Jó tem nome: Cristo, o Redentor vivo.
A certeza de Jó de que, depois da morte, veria a Deus com os seus próprios olhos aponta para a ressurreição que temos em Cristo. Jesus não apenas garante que veremos a Deus, mas nos promete corpos ressuscitados e a visão do próprio Deus face a face. O que Jó vislumbrava em meio à dor tornou-se, pela ressurreição de Cristo, a esperança segura de todo crente: contemplaremos o Senhor, e seremos como ele.
E o abandono total de Jó, rejeitado por Deus e por todos, aponta para Cristo, que na cruz foi verdadeiramente abandonado em nosso lugar. Jesus foi desamparado pelo Pai, negado pelos amigos e desprezado pelos homens, carregando a solidão que merecíamos, para que nós nunca fôssemos abandonados por Deus. O grito de Jó por compaixão encontra a sua resposta naquele que sofreu conosco e por nós, e que agora nunca nos deixa.
Três lições de Jó 19 para hoje
A fé pode brilhar no ponto mais escuro
Foi no fundo do abandono e da dor que Jó pronunciou a sua mais alta confissão de fé. A esperança em Deus pode brilhar justamente nos momentos mais sombrios. Somos chamados a não desistir da fé nos vales mais profundos, mas a lembrar que é ali, muitas vezes, que a confiança em Deus se mostra mais preciosa e mais forte, erguendo-se do próprio sofrimento como uma luz que a escuridão não apaga.
O nosso Redentor vive
Jó agarrou-se à certeza de que o seu Redentor vivia, mesmo sem entender o seu sofrimento. Nós temos uma certeza ainda maior: conhecemos esse Redentor, Jesus Cristo, que vive e intercede por nós. Somos chamados a firmar o coração nessa verdade, especialmente quando tudo parece contra nós. Ter um Redentor vivo significa que a nossa causa está em boas mãos, e que ninguém e nada pode nos arrancar do seu amor.
Espere ver a Deus
Jó ansiava por, com os seus próprios olhos, contemplar a Deus, e essa esperança o sustentava. A maior esperança do crente é a de ver a Deus face a face. Somos chamados a viver com essa expectativa, deixando que a promessa de contemplar o Senhor um dia dê sentido às nossas lutas presentes. Essa esperança da ressurreição e da visão de Deus é âncora firme para a alma em meio a qualquer sofrimento.
Perguntas frequentes sobre Jó 19
Em Jó 19, Jó responde a Bildade queixando-se dos amigos que o afligiam e descrevendo o abandono total que sentia da parte de Deus, dos parentes e até da esposa. No ponto mais baixo do seu sofrimento, ele se ergue à mais alta confissão de fé: eu sei que o meu Redentor vive, e a certeza de que verá a Deus com os seus próprios olhos.
É a grande declaração de fé de Jó em Jó 19.25. A palavra Redentor traduz o goel, o parente-remidor que defendia e resgatava a causa de alguém. Jó tinha a certeza de que, mesmo que morresse, o seu Defensor viveria e o vindicaria. Essa esperança aponta para Cristo, o Redentor vivo que nos remiu com o seu sangue e ressuscitou.
Sim. Jó expressou a esperança de que, depois de desfeita a sua pele, ainda veria a Deus em sua carne, com os seus próprios olhos. Muitos entendem essa passagem como um vislumbre da ressurreição e da vida após a morte, uma esperança que se cumpriria plenamente em Cristo, que ressuscitou e nos promete corpos ressuscitados.
Jó se sentia abandonado por Deus, que lhe parecia hostil, e por todos ao seu redor: irmãos, conhecidos, amigos, servos e até a esposa se afastaram dele. Reduzido a pele e osso pela doença, ele estava só e desprezado, o que aumentava a sua dor e o levou a clamar por compaixão aos amigos que só o acusavam.
A declaração o meu Redentor vive aponta para Cristo, o Redentor que de fato vive e nos remiu com o seu sangue. A certeza de ver a Deus após a morte aponta para a ressurreição que temos em Jesus, e o abandono total de Jó aponta para Cristo, que foi verdadeiramente desamparado na cruz em nosso lugar, para que nunca fôssemos abandonados.
Referências
- BÍBLIA. Almeida Revista e Corrigida (ARC). Sociedade Bíblica do Brasil.
- WALTON, John H. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento.
- ZUCK, Roy B. Comentário do conhecimento bíblico: Antigo Testamento (seção de Jó).