João 7 é um dos capítulos mais marcantes do Evangelho, pois mostra o ambiente de oposição, incredulidade e expectativa em torno de Jesus. Em meio à Festa dos Tabernáculos, enquanto o povo celebrava a provisão de Deus no passado, o Messias estava ali, oferecendo vida verdadeira, mas poucos o reconheceram.
Qual é o contexto histórico e teológico de João 7?
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O Evangelho de João foi escrito entre os anos 85 e 95 d.C., pelo apóstolo João, conhecido como “o discípulo amado”. Ele escreveu com um propósito muito claro: apresentar Jesus como o Filho de Deus e levar as pessoas à fé nele.
Hernandes Dias Lopes explica que “João não se preocupa em narrar os eventos cronológicos ou geográficos de forma detalhada, mas em mostrar as glórias do Filho de Deus” (LOPES, 2015, p. 217). Por isso, muitos dos episódios registrados acontecem em Jerusalém ou nas grandes festas judaicas, como é o caso aqui.
A Festa dos Tabernáculos, ou Festa das Cabanas (Sukkot), era uma das três grandes festas de peregrinação do povo judeu, conforme vemos em Levítico 23 e Deuteronômio 16. Ela comemorava o tempo em que os israelitas habitaram em tendas no deserto e celebrava a colheita.
Como destaca J. C. Ryle, “além de lembrar a provisão de Deus no deserto, essa festa carregava um forte simbolismo messiânico. O povo esperava o dia em que Deus armaria sua tenda definitiva com os redimidos” (RYLE, 2018, p. 140).
Nesse cenário de celebração e esperança, Jesus se revela como a verdadeira fonte de vida.
Por que os irmãos de Jesus não creram nele? (João 7.1–13)
O texto começa mostrando a incredulidade dentro da própria casa de Jesus:
“Pois nem os seus irmãos criam nele” (João 7.5).
Isso é surpreendente. Mesmo vivendo tão perto de Jesus, seus irmãos não reconheciam sua identidade. Como diz Ryle, “se a convivência com Cristo em carne e os sinais evidentes não foram suficientes para convertê-los, vemos aqui a total incapacidade humana sem a graça divina” (RYLE, 2018, p. 139).
Os irmãos incentivam Jesus a ir a Jerusalém e se apresentar publicamente (v. 3-4), revelando sua visão mundana, de busca por reconhecimento. Mas Jesus, consciente do plano do Pai, responde:
“Para mim ainda não chegou o tempo certo” (João 7.6).
Essa fala me lembra que Jesus sempre agiu no tempo de Deus, não no tempo dos homens. Ele não se deixou pressionar, pois sabia que “a sua hora ainda não havia chegado” (João 7.30).
Enquanto isso, o povo estava dividido: alguns o consideravam um homem bom; outros, um enganador (João 7.12). O medo dos líderes religiosos fazia o ambiente ficar tenso, e ninguém falava dele abertamente (v. 13).
O que Jesus ensinou no templo? (João 7.14–36)
No meio da festa, Jesus vai ao templo e começa a ensinar. A reação do povo é de admiração:
“Como foi que este homem adquiriu tanta instrução, sem ter estudado?” (João 7.15).
Jesus explica que sua doutrina vem do Pai. E faz uma afirmação profunda:
“Se alguém decidir fazer a vontade de Deus, descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo” (João 7.17).
Essa frase me ensina que o conhecimento espiritual não vem apenas do intelecto, mas da disposição de obedecer. Ryle destaca: “Aquele que pratica com sinceridade o que já sabe, logo receberá mais luz” (RYLE, 2018, p. 144).
Jesus também confronta a hipocrisia dos judeus. Eles o acusavam por curar no sábado, mas faziam a circuncisão nesse mesmo dia (João 7.22-23). Ele os exorta:
“Não julguem apenas pela aparência, mas façam julgamentos justos” (João 7.24).
A multidão se divide novamente. Alguns começam a questionar se ele seria o Cristo, mas esbarram no preconceito: “Sabemos de onde ele é” (João 7.27).
Esse detalhe me leva a Miquéias 5.2, onde estava profetizado que o Messias nasceria em Belém, o que de fato aconteceu. Mas o povo, desinformado ou preconceituoso, rejeitava essa possibilidade.
Mesmo assim, muitos creram em Jesus, dizendo:
“Quando o Cristo vier, fará mais sinais miraculosos do que este homem fez?” (João 7.31).
Os fariseus, incomodados, enviam guardas para prendê-lo, mas Jesus afirma que o tempo dele ainda não chegou. Em breve ele retornaria ao Pai, e eles o procurariam em vão (João 7.33-34).
Qual o significado do convite de Jesus na festa? (João 7.37–39)
O ponto alto do capítulo é o convite de Jesus no último e mais importante dia da festa. Durante a cerimônia da libação da água, ele se levanta e diz em alta voz:
“Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (João 7.37-38).
Aqui, Jesus cumpre o simbolismo da festa. A água lembrava a provisão no deserto, como vimos em Êxodo 17, mas apontava também para a esperança messiânica, como profetizou Isaías:
“Com alegria vocês tirarão água das fontes da salvação” (Isaías 12.3).
Jesus se apresenta como essa fonte de vida. João explica:
“Ele estava se referindo ao Espírito, que mais tarde receberiam os que nele cressem” (João 7.39).
Essa promessa se cumpriria no Pentecostes, como lemos em Atos 2, quando o Espírito Santo foi derramado sobre a Igreja.
Para mim, isso mostra que Jesus não oferece apenas alívio momentâneo, mas uma vida abundante, cheia do Espírito, que transborda e alcança outras pessoas.
Por que o povo se dividiu sobre Jesus? (João 7.40–53)
Após o convite, a reação do povo é, novamente, de divisão. Alguns reconhecem:
“Certamente este homem é o Profeta” (João 7.40).
Outros dizem:
“Ele é o Cristo” (João 7.41).
Mas muitos rejeitam, presos à ideia equivocada de que o Messias não poderia vir da Galileia (João 7.41-42). Ignoravam que Jesus havia nascido em Belém, cumprindo Miquéias 5.2.
Até os guardas enviados para prendê-lo retornam admirados:
“Ninguém jamais falou da maneira como esse homem fala” (João 7.46).
A liderança religiosa, cega pelo orgulho, rejeita essa possibilidade. Mas Nicodemos, ainda tímido, tenta trazer equilíbrio:
“Acaso, a nossa lei julga um homem sem primeiro ouvi-lo e saber o que ele fez?” (João 7.51).
Mesmo sem se posicionar abertamente, Nicodemos já demonstra o efeito gradativo da graça em sua vida, como veremos em João 19.
Que profecias se cumprem em João 7?
Vemos aqui o cumprimento ou a referência de várias profecias:
- O Messias como fonte de água viva (Isaías 12.3, Ezequiel 47).
- A promessa do derramamento do Espírito Santo, concretizada em Atos 2.
- O nascimento do Messias em Belém, da linhagem de Davi (Miquéias 5.2).
- A rejeição do Messias, já anunciada em Isaías 53.
Tudo isso aponta para Jesus como o cumprimento das Escrituras.
O que João 7 me ensina para a vida hoje?
Esse texto me confronta de várias formas.
Primeiro, me faz lembrar que a incredulidade humana não surpreende a Deus. Nem mesmo os irmãos de Jesus criam nele inicialmente. Isso me consola ao ver pessoas próximas ainda distantes de Cristo.
Depois, aprendo que o convite de Jesus continua atual. Se tenho sede, ele é a fonte. Mas preciso reconhecer minha sede, minha necessidade espiritual.
Além disso, sou chamado a não julgar pelas aparências, mas a buscar discernimento, como Jesus ensinou.
Vejo também que seguir a Cristo gera oposição e divisão. Uns creem, outros rejeitam. Mas isso não deve me impedir de anunciar a verdade.
Por fim, sou lembrado que, ao crer em Cristo, recebo o Espírito Santo, e minha vida deve ser como um rio de água viva, transbordando graça para quem está ao meu redor.
Referências
- LOPES, Hernandes Dias. João: As Glórias do Filho de Deus. 1. ed. São Paulo: Hagnos, 2015.
- RYLE, J. C. Meditações no Evangelho de João. 2. ed. São José dos Campos: Editora Fiel, 2018.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.