Quem escolheu os livros da Bíblia? A história do cânon

Existe uma pergunta que muita gente carrega caladinha, às vezes com um leve aperto no peito: “Mas afinal, quem decidiu quais livros entrariam na Bíblia? Foi a Igreja que escolheu? E se tivessem escolhido errado?”

É uma pergunta honesta, e merece uma resposta honesta. A boa notícia é que, quando você entende como tudo aconteceu de verdade, a sua confiança na Palavra de Deus não diminui. Ela cresce.

Neste estudo vamos percorrer essa história com calma: o que significa a palavra “cânon”, como os primeiros cristãos reconheceram os livros inspirados, por que esse processo levou tempo, e onde está a mão de Deus em tudo isso.

O que significa “cânon”

A palavra vem do grego kanon, que quer dizer “régua” ou “vara de medir”. Um cânon é um padrão, uma medida de referência.

Quando falamos do “cânon das Escrituras”, estamos falando da lista de livros reconhecidos como Palavra de Deus, a régua pela qual a fé e a vida do povo de Deus são medidas. Não é uma lista qualquer. É o conjunto de escritos que a Igreja recebeu como inspirados e dotados de autoridade.

E aqui já aparece a primeira correção importante de rota.

A Igreja não criou o cânon. Ela o reconheceu.

Essa é a chave de todo o assunto, então vale repetir devagar: a Igreja não inventou quais livros seriam Palavra de Deus. Ela reconheceu os livros que já eram Palavra de Deus.

A diferença é enorme. Pense num joalheiro diante de uma pedra preciosa. Ele não fabrica o valor do diamante. O valor já está ali. O que ele faz é reconhecer, identificar, atestar o que a pedra já é. Foi assim com as Escrituras. A autoridade dos livros não veio de um voto humano. Ela vinha de Deus, e a Igreja, ao longo do tempo, foi reconhecendo onde essa voz divina estava.

O apóstolo Paulo escreve a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus” (2 Timóteo 3.16). O verbo no original carrega a ideia de algo “soprado por Deus”. A autoridade nasce do sopro divino, não do carimbo humano.

Como o Antigo Testamento foi reconhecido

Boa parte da história do cânon já estava resolvida antes mesmo de a Igreja existir.

Os judeus já reconheciam suas Escrituras, organizadas em três grandes blocos: a Lei, os Profetas e os Escritos. O próprio Jesus se refere a essa divisão quando diz aos discípulos que era necessário cumprir tudo o que estava escrito “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” a seu respeito (Lucas 24.44).

Repare numa coisa simples e poderosa: Jesus tratava as Escrituras hebraicas como autoridade final. “Está escrito” era, para Ele, o fim da discussão (veja como Ele responde ao tentador em Mateus 4). Se o Antigo Testamento era a Palavra de Deus para o nosso Senhor, ele é Palavra de Deus para nós.

(Há uma pergunta que costuma surgir aqui: e os livros a mais que aparecem na Bíblia católica? Esse ponto merece um estudo próprio, e você encontra ele em Por que a Bíblia católica tem mais livros?)

O Novo Testamento: um reconhecimento que levou tempo

Com o Novo Testamento, o processo foi mais gradual, e isso costuma assustar quem ouve pela primeira vez. Mas não há motivo para medo. Pelo contrário, há motivo para admiração.

Os livros do Novo Testamento foram escritos ao longo do primeiro século. As cartas de Paulo circulavam entre as igrejas, os evangelhos eram lidos nos cultos, e desde cedo esses escritos eram tratados com reverência. O próprio Pedro, ainda no primeiro século, já chama as cartas de Paulo de “Escrituras”, colocando-as no mesmo nível dos demais textos sagrados (2 Pedro 3.16). Ou seja: o reconhecimento começou cedo, dentro das próprias páginas do Novo Testamento.

Mas por que demorou para haver uma lista fechada e universalmente aceita? Por três razões muito humanas e compreensíveis:

  1. As igrejas estavam espalhadas por um império inteiro, sem internet e sem correio rápido. Levava tempo para que todas confirmassem quais escritos eram realmente apostólicos.
  2. Surgiram falsificações. Apareceram “evangelhos” e “cartas” tardios, atribuídos falsamente aos apóstolos. A Igreja precisou separar o verdadeiro do falso com cuidado.
  3. Houve provocações externas. Por volta do ano 144, um homem chamado Marcião propôs uma Bíblia mutilada, rejeitando o Antigo Testamento e cortando boa parte do Novo. A heresia obrigou a Igreja a dizer com clareza o que sempre creu.

Os critérios usados para reconhecer um livro

Os primeiros cristãos não escolhiam livros por gosto pessoal. Eles aplicavam critérios consistentes. Em essência, três perguntas:

  • Origem apostólica. O livro foi escrito por um apóstolo ou por alguém ligado diretamente ao círculo apostólico? A autoridade de Cristo havia sido confiada aos apóstolos, então o que vinha deles tinha peso único.
  • Fidelidade à regra de fé. O conteúdo do livro estava em harmonia com aquilo que a Igreja recebera desde o princípio? Um escrito que contradissesse o evangelho não podia ser Palavra de Deus.
  • Aceitação ampla. O livro era lido, reconhecido e usado pelas igrejas em toda parte, e não apenas por um grupo isolado?

Esses critérios não fabricavam a autoridade do texto. Eles ajudavam a Igreja a reconhecer a autoridade que já estava lá.

Os marcos da história

Alguns momentos ajudam a visualizar como o reconhecimento foi se consolidando:

  • Por volta de 170 a 200, um documento conhecido como Fragmento Muratoriano já lista a maioria dos livros do Novo Testamento.
  • No mesmo período, Ireneu de Lião defende com firmeza os quatro evangelhos como os únicos reconhecidos.
  • Em 367, numa carta pastoral enviada às igrejas (a 39ª Carta Festal), Atanásio de Alexandria lista exatamente os 27 livros do Novo Testamento que temos hoje, nem mais, nem menos.
  • Nos anos seguintes, concílios como os de Hipona (393) e de Cartago (397) confirmam essa mesma lista.

E aqui um detalhe que faz toda a diferença: esses concílios não votaram para “decidir” o que seria Bíblia. Eles ratificaram, oficializaram, colocaram o selo final naquilo que as igrejas já reconheciam havia muito tempo. O concílio foi a certidão de nascimento registrada em cartório, não o nascimento em si.

Onde está Deus em tudo isso?

Talvez você esteja pensando: “Tudo bem, mas isso parece muito humano. Onde entra Deus?”

Entra do começo ao fim. A mesma providência que inspirou os autores também guiou o povo de Deus no reconhecimento dos textos. Jesus prometeu que o Espírito Santo guiaria os seus em toda a verdade (João 16.13). Não faria sentido Deus inspirar as Escrituras e depois abandonar a sua Igreja na hora de reconhecê-las.

Os reformadores chamavam isso de testemunho interno do Espírito: as ovelhas reconhecem a voz do Pastor. “As minhas ovelhas ouvem a minha voz”, disse Jesus (João 10.27). O cânon não foi imposto de fora. Foi reconhecido por um povo que ouvia, na Escritura, a voz familiar de seu Senhor.

E se eu ainda tiver dúvidas sobre a confiabilidade do texto?

É uma preocupação legítima, e tem resposta sólida. Se a sua pergunta é “será que esse texto chegou até mim sem ser alterado ao longo dos séculos?”, esse é um assunto que merece atenção dedicada, e você encontra ele neste estudo: A Bíblia foi alterada? Como sabemos que é confiável.

O que isso muda na sua vida

No fim das contas, esta não é uma discussão de arquivo empoeirado. É uma questão de chão firme debaixo dos seus pés.

Quando você abre a sua Bíblia pela manhã, você não está segurando uma antologia montada por comitê. Você está segurando os escritos que o povo de Deus, guiado pelo Espírito, reconheceu como a voz do próprio Deus, testados por séculos, atravessando impérios, sobrevivendo a perseguições e a falsificações.

“A erva seca, e a flor murcha, mas a palavra de nosso Deus subsiste eternamente” (Isaías 40.8).

Você pode confiar no livro que tem nas mãos. Não porque um concílio mandou, mas porque Aquele que o inspirou cuidou para que ele chegasse até você.

Para se aprofundar

  • Alister E. McGrath, Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica — cap. 1 (O período patrístico) e cap. 6 (As fontes da teologia: o cânone da Escritura).
  • F. F. Bruce, O Cânon das Escrituras.
  • Louis Berkhof, Teologia Sistemática — seção introdutória sobre as Escrituras.

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