Ezequiel 2 me ensina que o chamado de Deus exige coragem diante da resistência. O profeta não é enviado a um povo receptivo, mas a uma nação rebelde. Ainda assim, ele deve falar com ousadia, mesmo sabendo que será rejeitado. Isso me lembra que fidelidade ao Senhor nem sempre resulta em aplausos — muitas vezes, ela nos leva a lugares difíceis, onde só o Espírito de Deus pode nos sustentar.
Qual é o contexto histórico e teológico de Ezequiel 2?
O capítulo 2 continua o relato iniciado em Ezequiel 1, no qual o profeta, ainda prostrado após ver a glória do Senhor, ouve a voz que o comissiona. Ele está entre os exilados na Babilônia, no quinto ano do cativeiro do rei Joaquim (593 a.C.), um momento de profundo trauma nacional para Judá. A elite foi levada cativa, o templo em Jerusalém ainda não havia sido destruído, mas a esperança estava desmoronando.
Ezequiel, como sacerdote, esperava servir no templo, mas é chamado para proclamar a Palavra entre os exilados. O contexto teológico é de julgamento: o povo quebrou a aliança, e agora sofre as consequências. Porém, mesmo em meio ao castigo, Deus não se cala. Ele levanta um profeta para falar — não a reis ou líderes, mas a uma comunidade quebrada.
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Segundo Block (2012), o chamado de Ezequiel segue a estrutura tradicional de comissionamento profético, mas com algumas variações importantes. Ao contrário de Moisés ou Jeremias, Ezequiel não apresenta desculpas nem hesitações. Deus também não promete livramento ou sucesso. O foco está na fidelidade do profeta e na realidade dura de seu público: uma casa rebelde.
Walton, Matthews e Chavalas (2018) observam que algumas expressões desse capítulo, como espinheiros e escorpiões, são únicas na Bíblia e devem ser entendidas culturalmente como metáforas de proteção e oposição. O que fica claro é que Ezequiel está sendo enviado como mensageiro real — um mal’ak, com autoridade divina — e sua missão será difícil.
Como o texto de Ezequiel 2 se desenvolve?
1. Qual é o primeiro gesto de Deus no chamado? (Ezequiel 2.1–2)
O capítulo começa com uma ordem: “Filho do homem, fique de pé, que eu vou falar com você” (v. 1). É Deus quem inicia a conversa. Ezequiel ainda está prostrado diante da glória que viu, mas agora é chamado a se levantar. E não o faz por conta própria — “o Espírito entrou em mim e me pôs de pé” (v. 2).
Isso me ensina que não me levanto sozinho para o chamado de Deus. É o Espírito que me capacita. Assim como em Atos 1.8, o poder para testemunhar não vem de mim, mas do Espírito Santo.
Block (2012) destaca que essa entrada do Espírito marca o início de um novo tempo na vida de Ezequiel. A capacitação sobrenatural precede qualquer ação profética. É Deus quem habilita seus mensageiros.
2. A quem Ezequiel é enviado? (Ezequiel 2.3–4)
Deus é direto: “vou enviá-lo aos israelitas, nação rebelde que se revoltou contra mim” (v. 3). A palavra rebelde aparece repetidamente. O povo não apenas desobedeceu; eles romperam a aliança. São descritos como obstinados e insubordinados (v. 4).
O termo hebraico mārad significa revolta deliberada contra a autoridade. Já pāšaʿ implica em traição, quebra de um pacto. Esses não são pecados leves, mas atos de afronta contra o próprio Deus. O povo a quem Ezequiel é enviado não é neutro. São opositores conscientes.
Walton, Matthews e Chavalas (2018) observam que a linguagem usada aqui lembra os tratados de suserania do mundo antigo. Israel agiu como um vassalo infiel. Por isso, o julgamento é justo.
O mais difícil é que Ezequiel não tem a promessa de que será ouvido. Sua missão é entregar a mensagem, “quer ouçam quer deixem de ouvir” (v. 5). O profeta deve ser fiel, não popular.
3. O que Deus diz sobre o ambiente onde Ezequiel estará? (Ezequiel 2.6)
A ordem se repete: “não tenha medo dessa gente nem das suas palavras”. Ezequiel viverá cercado por espinheiros e escorpiões. Essas imagens são impactantes.
Segundo Walton, Matthews e Chavalas (2018), é possível que essas palavras designem tipos de plantas espinhosas e não apenas animais. De qualquer forma, a ideia é clara: Ezequiel estará em um ambiente hostil. Cada palavra, cada olhar, cada reação será um desafio.
Mas Deus o tranquiliza: “não tenha medo, nem fique apavorado”. A repetição mostra que o medo seria natural, mas a coragem é o que Deus exige.
Isso me confronta. Muitas vezes, hesito em falar do Evangelho com medo da rejeição. Mas Ezequiel me lembra: o chamado de Deus inclui oposição. E Ele mesmo me dá coragem.
4. Qual é a missão principal de Ezequiel? (Ezequiel 2.7)
A ordem é clara: “Você lhes falará as minhas palavras” — independentemente da reação. O profeta não deve medir o sucesso pela resposta do povo, mas pela fidelidade à sua mensagem.
Block (2012) aponta que, diferentemente de outros profetas, Ezequiel não tem direito de negociar seu chamado. Ele não é consultado. Apenas comissionado.
Isso me mostra que o ministério não é uma carreira, mas uma missão. E muitas vezes, o sucesso não é visível — é espiritual.
5. O que significa comer o rolo? (Ezequiel 2.8–10)
O capítulo termina com um gesto simbólico poderoso. Deus manda Ezequiel comer o rolo (v. 8). O profeta deve internalizar a mensagem antes de proclamá-la. A Palavra deve ser digerida, incorporada, vivida.
O rolo está escrito por dentro e por fora — repleto de lamentações, pranto e ais (v. 10). A missão não será alegre. A mensagem é de juízo. Mas, no capítulo seguinte, Ezequiel dirá que o rolo era doce como mel (Ez 3.3). Isso mostra o paradoxo da Palavra de Deus: amarga por seu conteúdo, doce por sua origem.
Block (2012) destaca que o gesto de comer simboliza submissão total. O profeta não tem liberdade de adaptar ou suavizar a mensagem. Ele a recebe como está.
Como Ezequiel 2 se cumpre no Novo Testamento?
A missão de Ezequiel ecoa nas palavras de Jesus: “Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou” (João 15.18). Ser porta-voz da verdade envolve resistência. Os apóstolos também enfrentaram rejeição, prisões e até a morte, mas permaneceram firmes.
O chamado de Ezequiel antecipa a vocação dos discípulos: “ide e pregai”, mesmo sabendo que nem todos ouvirão (Mateus 10.16–22).
A imagem do rolo também aparece em Apocalipse 10, quando João é ordenado a comer o livrinho, que era doce na boca, mas amargo no estômago. A missão profética continua sendo exigente e confrontadora. Proclamar a verdade é, muitas vezes, amargo — mas indispensável.
O que Ezequiel 2 me ensina para a vida hoje?
Ao ler Ezequiel 2, sou lembrado de que o chamado de Deus não é confortável. Não se trata de agradar pessoas, mas de transmitir com fidelidade o que o Senhor manda dizer.
Eu aprendo que devo confiar no Espírito. Foi Ele quem levantou Ezequiel e é Ele quem me sustenta também. Não posso cumprir minha missão pela força humana. Preciso ser cheio da presença de Deus.
A figura dos espinhos e escorpiões me desafia. Nem todo ambiente será receptivo. Às vezes, servir a Deus envolve hostilidade, rejeição, oposição. Mas isso não muda minha missão.
Também aprendo que a Palavra deve ser internalizada. Antes de ensinar, preciso comer o rolo — deixar que a mensagem me transforme. Só assim terei autoridade para falar.
E, acima de tudo, percebo que ser profeta é ser fiel. O sucesso não está na aprovação dos outros, mas na obediência a Deus. Ainda que ninguém ouça, se eu proclamar o que Ele mandou, estarei cumprindo meu chamado.
Referências
- BLOCK, Daniel I. O livro de Ezequiel. Tradução: Déborah Agria Melo da Silva et al. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.