Ezequiel 43 me ensina que Deus deseja habitar no meio do seu povo purificado. A glória que um dia partiu do templo por causa do pecado agora retorna como selo de restauração. Isso me mostra que, mesmo após o juízo, Deus continua comprometido com sua aliança. Ele volta. Ele perdoa. Ele se revela com graça e exige santidade.
Qual é o contexto histórico e teológico de Ezequiel 43?
O capítulo 43 se insere na seção final da grande visão do templo (Ezequiel 40–48), que acontece no 25º ano do exílio, ou seja, por volta de 573 a.C. O povo está na Babilônia há mais de duas décadas, e Jerusalém já havia sido destruída (Ezequiel 33.21). A esperança da reconstrução parecia distante, e o templo — símbolo da presença divina — havia sido arrasado.
É nesse contexto que Ezequiel recebe uma visão detalhada de um novo templo, que ocupa os capítulos 40 a 48. Como explica Daniel I. Block (2012), o retorno da kābôd (glória) de Yahweh neste capítulo é o clímax da visão. No início do livro, em Ezequiel 10 e 11, essa mesma glória se afastou do templo por causa da idolatria e das práticas abomináveis. Agora, ela retorna, sinalizando reconciliação e restauração da comunhão com o povo.
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Segundo Walton, Matthews e Chavalas (2018), a descrição dessa volta da glória de Deus é paralela aos relatos da dedicação do tabernáculo (Êxodo 40) e do templo de Salomão (1Reis 8). Em todos esses casos, a manifestação da glória é a aprovação visível do Senhor sobre o santuário.
Como o texto de Ezequiel 43 se desenvolve?
1. O que significa a volta da glória do Senhor? (Ezequiel 43.1–5)
“Então o homem levou-me até a porta que dava para o leste” (v. 1). Ezequiel retorna ao mesmo lugar de onde a glória de Deus partiu no passado (ver Ezequiel 10.19; 11.23). Agora, ele vê a glória do Deus de Israel vindo do oriente (v. 2). O som que acompanha a glória é como o de muitas águas, e a terra inteira resplandece com a sua luz.
Essa manifestação é intensa, visual e sonora. O profeta se lembra das visões anteriores no rio Quebar, e se prostra com o rosto em terra (v. 3). O Espírito o levanta e o leva ao pátio interno, onde a glória do Senhor enche o templo (v. 5).
Block (2012) observa que esse movimento reverso — da glória voltando para o templo — é intencional. Ele reverte o juízo e inaugura uma nova etapa. É como se o próprio Deus dissesse: “Agora, volto para habitar entre vocês”.
2. O que Deus declara ao entrar no templo? (Ezequiel 43.6–9)
Do interior do templo, Yahweh começa a falar. “Filho do homem, este é o lugar do meu trono, o lugar para a sola dos meus pés” (v. 7). Ele afirma que viverá ali “para sempre entre os israelitas”. A linguagem é de realeza. Deus estabelece sua residência e seu governo no meio do povo.
Mas há um contraste. Ele lembra o motivo de sua saída no passado: prostituição espiritual, idolatria e culto aos mortos (v. 7b–9). Segundo Block (2012), a expressão “ídolos sem vida de seus reis” remete possivelmente a um culto aos mortos praticado pelos reis de Israel, parecido com o culto funerário de Ugarit.
Deus afirma que não compartilhará mais seu espaço com essas práticas. “Que afastem de mim a sua prostituição e os seus ídolos sem vida”, diz Ele, “e eu viverei entre eles para sempre” (v. 9). A permanência da presença de Deus está condicionada à purificação do culto e à exclusividade da adoração.
3. Qual o papel de Ezequiel na restauração? (Ezequiel 43.10–11)
O profeta agora recebe uma nova incumbência: mostrar o templo ao povo de Israel “para que fiquem envergonhados dos seus pecados” (v. 10). A planta do templo, suas leis e medidas deveriam ser registradas por escrito, com o propósito de produzir arrependimento e fidelidade.
O templo torna-se um mapa espiritual. Ao medir sua planta, o povo mediria também sua culpa. Como explica Block, o verbo “medir” tem aqui uma conotação espiritual e teológica: ao avaliar os limites do templo, o povo seria confrontado com os limites da santidade e da obediência.
4. O que significa a “Torá do templo”? (Ezequiel 43.12)
A frase “Esta é a Torá do templo” introduz a próxima seção (v. 12). O termo “torá” aqui não deve ser lido apenas como “lei”, mas como instrução divina. Segundo Walton, Matthews e Chavalas (2018), Ezequiel segue a tradição israelita que associa a instrução cultual com os sacerdotes (cf. Levítico 10.10–11; Ezequiel 44.23–24).
Essa instrução serve para preservar a santidade. “Todo o território ao redor […] deve ser absolutamente santo” (v. 12). Yahweh pode habitar no meio do povo, mas exige que seu espaço seja santificado. A presença de Deus é uma dádiva, mas também uma responsabilidade.
5. Qual é a estrutura do novo altar? (Ezequiel 43.13–17)
Agora, o foco se volta ao altar de sacrifícios. Ele está no centro do templo e é descrito com detalhes arquitetônicos (vv. 13–17). O altar é grande, com degraus voltados para o oriente, e cheio de simbolismos.
Daniel Block observa que as dimensões do altar lembram o altar do templo de Salomão (2Crônicas 4.1). Mas o mais importante não é o tamanho — é a função. O altar é o ponto de encontro entre o povo e Deus. Sua presença no coração do templo mostra que a adoração envolve sacrifício, purificação e consagração.
6. Como o altar é purificado? (Ezequiel 43.18–27)
Nos versículos 18 a 27, lemos sobre o ritual de consagração do altar. Esse processo dura sete dias e envolve ofertas pelo pecado, holocaustos e a aspersão de sangue. No oitavo dia, o altar se torna plenamente funcional.
Yahweh diz: “Eu te receberei” (v. 27). Essa expressão é chave. Todo o ritual aponta para restauração da comunhão. A purificação do altar simboliza a purificação do relacionamento entre Deus e seu povo.
Como destaca Block (2012), Ezequiel aparece aqui como um novo Moisés. Ele recebe diretamente a instrução divina e é incumbido de preparar o altar — assim como Moisés fez no deserto. A ordem e os rituais revelam que, mesmo após o exílio, Deus quer habitar entre os pecadores, desde que haja arrependimento e purificação.
Como Ezequiel 43 se cumpre no Novo Testamento?
A promessa de Deus habitar no meio do seu povo encontra cumprimento pleno em Jesus. Em João 1.14, lemos que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. A palavra grega “eskenosen” carrega a ideia de “tabernacular” — Deus armando sua tenda entre os homens.
Cristo é o novo templo (João 2.19–22). Ele é o lugar onde o céu toca a terra, onde a glória de Deus se manifesta de forma plena. O altar de Ezequiel encontra paralelo na cruz. Ali, Jesus ofereceu o sacrifício definitivo e eterno (Hebreus 9.11–14).
O Espírito que levantou Ezequiel (Ez 43.5) agora habita no crente. Como afirma 1Coríntios 6.19, “Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo?” A nova habitação de Deus não está mais em pedras, mas em pessoas redimidas.
Além disso, a esperança de Deus habitar para sempre no meio do seu povo encontra eco em Apocalipse 21.3: “Agora o tabernáculo de Deus está com os homens, com os quais ele viverá. Eles serão os seus povos; o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus”.
O que Ezequiel 43 me ensina para a vida hoje?
Ao ler Ezequiel 43, sou lembrado de que Deus é santo, mas também deseja se aproximar. A presença dele não é automática. Ela exige arrependimento, purificação e exclusividade.
A glória de Deus não é apenas um espetáculo. Ela é um selo da sua aprovação. Ele volta para habitar com um povo que o deseja e que purifica o templo — seja esse templo de pedra, seja meu próprio coração.
O fato de a glória ter saído e depois voltado me ensina que Deus disciplina, mas também restaura. Ele não fica ausente para sempre. Quando me arrependo, Ele volta. E quando Ele volta, tudo muda. Sua presença transforma o espaço, a rotina, o culto e a vida.
O altar no centro do templo me faz pensar: existe um altar no centro da minha vida? Tenho oferecido minha adoração de forma pura, sincera, constante? Ou meu culto tem sido misturado, superficial ou conveniente?
A Torá do templo mostra que Deus não aceita qualquer culto. Ele é detalhista, zeloso e exige reverência. Mas também mostra que Ele instrui, ensina, e deseja ser adorado da forma correta. Isso me desafia a buscar santidade, e não apenas experiência.
Por fim, Ezequiel 43 me lembra da graça. Apesar do passado do povo — idolatria, prostituição espiritual, impureza — Deus volta. Ele os recebe. E essa é a mesma promessa para mim. Se eu confessar, abandonar e me humilhar, Ele me receberá.
Referências
- BLOCK, Daniel I. O livro de Ezequiel. Tradução: Déborah Agria Melo da Silva et al. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.