Jeremias 8 Estudo: por que a sua ferida não sara?

Jeremias 8 apresenta um dos diagnósticos mais tristes de toda a Escritura: um povo que cai e não levanta, que se desvia e não volta, enquanto até as aves migratórias obedecem ao tempo que Deus lhes marcou. O capítulo desemboca na pergunta pelo bálsamo de Gileade: há cura e há médico, mas ninguém se arrepende.

Quando leio este capítulo, a pergunta final não me sai da cabeça: se há bálsamo em Gileade e há médico, por que a ferida não sara? A resposta de Jeremias é desconcertante de tão simples: porque não houve arrependimento.

Qual é o contexto histórico e teológico de Jeremias 8?

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Neste estudo você vai ver:

  • A lógica quebrada de quem cai e não levanta
  • A lição da cegonha e das aves migratórias
  • O que é a pena mentirosa dos escribas
  • O significado de “não há bálsamo em Gileade?”

Os versículos 1-3 fecham a unidade do sermão do templo, iniciada em Jeremias 7, com a cena da profanação dos túmulos. A partir do versículo 4 abre-se uma nova grande divisão do livro, “Desobediência e punição” (8.4-10.25), que reflete o conflito de Jeremias com os líderes religiosos nos primeiros anos de Jeoaquim (MACKAY, 2018).

Um detalhe técnico ajuda o leitor: a divisão entre os capítulos 8 e 9 difere entre as versões em português e o texto hebraico. O versículo que conhecemos como 9.1 (“fonte de lágrimas”) é o 8.23 do Texto Massorético, o que mostra como o choro do profeta nasce diretamente da ferida sem cura deste capítulo (MACKAY, 2018).

Teologicamente, o capítulo gira em torno do verbo hebraico šûb, que significa tanto desviar-se quanto voltar. O comportamento normal de quem cai é levantar; o comportamento normal de quem erra o caminho é voltar. Judá quebrou essa lógica elementar: sua apostasia tornou-se perpétua, e ninguém pergunta “que fiz eu?” (MACKAY, 2018).

Como se desenvolve a análise do texto bíblico em Jeremias 8?

Quem cai não levanta? (8.4-7)

A mensagem abre com perguntas de lógica cotidiana, quase proverbiais: “Porventura, cairão e não se tornarão a levantar? Desviar-se-ão e não voltarão?” (Jr 8.4). Qualquer pessoa que cai levanta; qualquer um que erra a estrada dá meia-volta. Só Jerusalém contraria a regra: desvia-se “com apostasia contínua” (MACKAY, 2018).

O povo se agarra ao engano (tarmît) com a firmeza com que um soldado segura a arma, e recusa-se a voltar. Deus escuta com atenção e não encontra sinal de esperança: “ninguém há que se arrependa da sua maldade, dizendo: Que fiz eu?” (v. 6). Em vez do exame de consciência, cada um corre a sua carreira “como um cavalo que arremete com ímpeto na batalha”: um galope incontível, sem retorno (MACKAY, 2018).

Então vem o contraste mais belo do capítulo: “Até a cegonha no céu conhece as suas estações; a rola, a andorinha e o grou observam o tempo da sua arribação; mas o meu povo não conhece o juízo do Senhor” (v. 7). As aves migratórias obedecem à ordem que o Criador implantou nelas; os filhos de Deus, não (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). Há ironia fina no original: o nome da cegonha (ḥăsîdâ) vem da mesma raiz de ḥesed, o amor fiel; a ave “fiel” cumpre seu tempo, o povo do Deus fiel não cumpre o seu (MACKAY, 2018).

A pena mentirosa e a falsa paz (8.8-12)

A segunda seção desmonta a autoconfiança dos letrados: “Como, pois, dizeis: Nós somos sábios, e a lei do Senhor está conosco?” (v. 8). O povo alegava possuir a Lei; a frase sobre a “pena mentirosa dos escribas” é das mais debatidas do livro. Mackay considera melhor a leitura que entende o trabalho dos escribas como inútil, e não fraudulento: eles copiavam e distribuíam a Lei, mas toda essa atividade seria em vão se o povo tratasse a mera posse de um rolo como o que importa, repetindo com a Escritura o que já fazia com a arca e com o Templo (MACKAY, 2018).

A aplicação é direta: a salvação não deriva da quantidade de Bíblias que alguém possui, mas da vida moldada pelos seus preceitos. Os sábios que rejeitaram a palavra do Senhor ficam sem resposta: “que sabedoria é essa que eles têm?” (v. 9).

Os versículos 10-12 repetem deliberadamente o veredito de Jeremias 6.13-15: do menor ao maior dados à ganância, profetas e sacerdotes curando superficialmente a ferida do povo e repetindo “Paz, paz”, quando não há paz, sem nem saber mais o que é envergonhar-se. A repetição mostra quanto o falso ensino era enganoso: prometia paz na véspera da catástrofe (MACKAY, 2018).

A vinha sem fruto e as serpentes do Norte (8.13-17)

O Senhor vem como ceifeiro à sua vinha e não encontra nada: “não haverá uvas na vide, nem figos na figueira, e a folha já está murcha” (v. 13). A esterilidade espiritual do povo faz com que as bênçãos da aliança sejam retiradas (MACKAY, 2018).

Nos versículos 14-16, o próprio povo fala no dia do julgamento: entra nas cidades fortificadas não para resistir, mas para perecer, reconhecendo que “o Senhor já nos deu a beber água venenosa, porquanto pecamos contra o Senhor”. Para uma cidade sitiada, o suprimento de água era questão de vida ou morte; a água envenenada é a imagem da rendição inevitável (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). E a confissão amarga do versículo 15 admite o engano: “espera-se a paz, mas não há bem; o tempo da cura, e eis o terror”.

Desde Dã, o extremo norte do país, já se ouve o resfolegar dos cavalos inimigos (v. 16). E o Senhor fecha com uma metáfora arrepiante: “envio para entre vós serpentes, áspides contra as quais não há encantamento” (v. 17). As literaturas do Egito e da Mesopotâmia estão cheias de encantamentos contra cobras; estas, porém, são “desconjuráveis”: nenhuma técnica humana deterá o exército caldeu (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). No hebraico, “serpentes” ainda ecoa o som de “norte” (ṣāpôn), a direção do invasor (MACKAY, 2018).

Não há bálsamo em Gileade? (8.18-22)

A última seção abre a chamada tristeza profética: “Oh! Se eu pudesse consolar-me na minha tristeza! O meu coração desfalece dentro de mim” (v. 18). Alguns leem aqui o choro do próprio Deus; Mackay entende que quem fala é primariamente o profeta, sem negar que o Senhor se entristece pela rebelião do seu povo (MACKAY, 2018). Jeremias sofre em dobro porque sabe que tudo aquilo era desnecessário: o povo foi avisado.

No versículo 19, o profeta ouve de antemão a voz dos exilados “de terra mui remota”: “Não está o Senhor em Sião?” Nem no exílio o povo entende o que aconteceu, e a pergunta divina expõe a raiz: por que, então, me provocaram com suas imagens de escultura? Segue-se o provérbio da esperança perdida: “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos” (v. 20). Se a colheita de grãos falhasse, restava a das frutas no fim do verão; passadas as duas, vinha a fome sem remédio (MACKAY, 2018; WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018).

“Estou quebrantado pela ferida da filha do meu povo; estou de luto”, diz o profeta (v. 21), literalmente “estou vestido de preto”. E então as três perguntas finais: “Acaso, não há bálsamo em Gileade? Ou não há lá médico? Por que, pois, não se realizou a cura da filha do meu povo?” (v. 22). Gileade era associada a uma resina aromática usada como unguento, produto valioso das rotas de caravanas; escavações em En-Gedi encontraram o que parece ser uma fábrica de bálsamo (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018).

Há remédio e há médico, e o médico por excelência de Israel é o próprio Senhor. Se a cura não veio, a resposta é uma só: não houve arrependimento (MACKAY, 2018). O choro que nasce dessa constatação transborda na abertura de Jeremias 9.

Como Jeremias 8 se conecta com Cristo e o evangelho?

As imagens do capítulo encontram seu desfecho no Novo Testamento:

  • O médico que veio aos doentes: a pergunta “não há lá médico?” aponta para aquele que declarou: “os sãos não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes” (Mc 2.17). Em Cristo, o médico de Gileade visitou pessoalmente a ferida do seu povo
  • O bálsamo verdadeiro: a cura que Judá não obteve é oferecida no Servo ferido: “pelas suas pisaduras, fomos sarados” (Is 53.5). O evangelho é o bálsamo que a lamentação de Jeremias pedia
  • As lágrimas do profeta e as de Jesus: o coração desfalecido de Jeremias antecipa o Messias que chora sobre Jerusalém porque ela não conheceu o tempo da sua visitação (Lc 19.41-44), justamente a falha denunciada na imagem da cegonha: as aves conhecem seu tempo, o povo não
  • A falsa paz e a paz verdadeira: contra o “paz, paz” dos falsos profetas, Cristo dá uma paz que o mundo não pode dar nem tirar (Jo 14.27), conquistada no juízo que ele mesmo absorveu na cruz
  • A colheita e a urgência do hoje: “passou a sega, findou o verão” é o retrato do prazo perdido; o evangelho responde com urgência oposta: “eis, agora, o tempo sobremodo oportuno, eis, agora, o dia da salvação” (2Co 6.2)
  • A vinha que Deus visita: o ceifeiro que não achou uvas nem figos (Jr 8.13) reaparece na figueira sem fruto que Jesus encontrou (Mc 11.12-21), sinal profético contra a mesma religião de folhas sem fruto

Quais são as lições espirituais e aplicações práticas de Jeremias 8?

Quando me detenho neste capítulo, três realidades me confrontam de modo particular.

A primeira é a anormalidade do coração que não volta. Cair não é o fim; o anormal é permanecer no chão. Jeremias me lembra que o arrependimento é o movimento mais natural do mundo, tão natural quanto levantar depois do tropeço, e que a pergunta “que fiz eu?” é das mais saudáveis que existem. O perigo não está na queda, mas no galope: seguir em frente com ímpeto de cavalo de batalha, sem parar para examinar o caminho.

A segunda é a posse da Escritura sem a prática da Escritura. Judá tinha cópias da Lei e se dizia sábio por isso. Eu tenho mais Bíblias em casa do que qualquer escriba de Jerusalém sonharia copiar, e o alerta permanece: o rolo na estante não salva ninguém. A pergunta não é quantas Bíblias eu possuo, mas quanto da Bíblia me possui.

A terceira é a janela de oportunidade que se fecha. “Passou a sega, findou o verão” é uma das frases mais tristes da Escritura porque descreve a esperança que morreu de espera. Adiar o retorno a Deus contando com uma próxima colheita é apostar contra um prazo que não me pertence.

Há ainda uma palavra para quem ministra: as lágrimas de Jeremias são parte da mensagem. Ele não anunciou o juízo com frieza de quem venceu a discussão; anunciou vestido de preto, quebrantado pela ferida do povo. Toda verdade dura dita sem coração quebrantado sai com o sotaque errado.

Perguntas frequentes sobre Jeremias 8

O que significa não há bálsamo em Gileade em Jeremias 8.22?

Gileade, a leste do Jordão, era associada a uma resina aromática usada como unguento medicinal, comercializada nas rotas de caravanas (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). As perguntas retóricas esperam resposta positiva: há remédio e há médico. Se a cura da nação não aconteceu, o problema não estava nos recursos de Deus, mas na ausência de arrependimento do povo (MACKAY, 2018).

Por que Jeremias 8 fala da cegonha e das aves migratórias?

A cegonha, a rola, a andorinha e o grou seguem com precisão o tempo de migração que o Criador lhes marcou; o povo de Deus, que recebeu a revelação, não reconhece o juízo do Senhor (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). Há ainda uma ironia no hebraico: o nome da cegonha deriva da mesma raiz de hesed, o amor leal, e a ave tida como símbolo de fidelidade envergonha o povo infiel (MACKAY, 2018).

O que é a pena mentirosa dos escribas em Jeremias 8.8?

É uma das frases mais discutidas do livro. A leitura mais provável, segundo Mackay, é que o trabalho dos escribas foi em vão: eles copiavam a Lei corretamente, mas de nada adiantava multiplicar rolos se o povo tratava a posse do documento como substituto da obediência, repetindo com a Escritura o erro cometido com a arca e com o Templo (MACKAY, 2018).

O que significa passou a sega, findou o verão em Jeremias 8.20?

É linguagem proverbial de esperança esgotada. A colheita de grãos ocorria em maio e junho; se falhasse, restava a colheita de frutas no fim do verão; passadas as duas, vinha a fome (MACKAY, 2018). Aplicado à nação, o provérbio confessa que a libertação esperada não veio e o prazo terminou, cenário agravado pela invasão que impedia colher os campos (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018).

O que são as serpentes que não aceitam encantamento em Jeremias 8.17?

São uma metáfora para o exército babilônico. O mundo antigo temia serpentes e produzia encantamentos contra elas, atestados nas literaturas egípcia e mesopotâmica; estas, porém, são desconjuráveis: nenhum recurso humano deterá o invasor (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). No hebraico, a palavra ainda ecoa o som de norte, a direção de onde o inimigo vem (MACKAY, 2018).

Quem chora em Jeremias 8.18-22, Deus ou o profeta?

Há bons intérpretes dos dois lados. Mackay entende que as expressões de tristeza são primariamente do profeta, que fala do seu coração desfalecido e do seu luto, sem negar que o Senhor se entristece pela rebelião do povo (MACKAY, 2018). O quadro antecipa o Messias que chora sobre Jerusalém em Lucas 19.41.

Como aplicar Jeremias 8 à vida cristã hoje?

Três pontos práticos podem orientar a aplicação. Primeiro, tratar a queda com a lógica do levantar: arrependimento rápido, com a pergunta sincera que fiz eu?. Segundo, não confundir posse da Bíblia com obediência à Bíblia: o rolo copiado não substitui a vida transformada. Terceiro, não adiar o retorno a Deus, pois a imagem da colheita perdida adverte que os prazos da graça são reais e o hoje é o tempo oportuno.

Referências

  • BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
  • MACKAY, John L. Jeremias. Tradução: Vagner Barbosa. 1. ed. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2018. Disponível em: https://amzn.to/3NemwXf
  • WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018. Disponível em: https://amzn.to/4w5iBxP
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