O que fazer quando o mal parece ter todo o poder nas mãos? Em Ester 3, um homem cheio de ódio, ocupando o mais alto cargo do império, consegue do rei um decreto para exterminar todo o povo judeu em um único dia. É o ponto mais sombrio da história, em que a ameaça de aniquilação paira sobre o povo de Deus. E, no entanto, mesmo aqui, a mão invisível de Deus está no controle de cada detalhe.
Neste estudo de Ester 3, veremos a promoção de Hamã e a recusa de Mardoqueu em se curvar, o lançamento do pur para escolher o dia da matança, a forma como Hamã persuadiu o rei com calúnia e suborno, e o decreto de morte enviado a todo o império. É um capítulo sobre a força do ódio e a soberania de Deus que não pode ser frustrada.
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A promoção de Hamã e a recusa de Mardoqueu (Ester 3.1-6)
O rei Assuero promoveu Hamã ao posto mais alto do reino, acima de todos os nobres, e ordenou que todos se curvassem diante dele. Hamã é chamado de agagita, um título que o liga a Agague, rei dos amalequitas, o antigo inimigo de Israel, ao passo que Mardoqueu era da tribo de Benjamim, a linhagem do rei Saul. Assim, o narrador evoca uma inimizade ancestral entre o povo de Deus e os inimigos que buscavam destruí-lo.
Enquanto todos se curvavam, Mardoqueu se recusava, declarando ser judeu. A recusa não envolvia adoração religiosa, mas Mardoqueu não estava disposto a prestar aquela honra a Hamã. Ao saber disso, Hamã ficou cheio de furor. Mas não se contentou em atingir apenas Mardoqueu: quando soube que ele era judeu, decidiu exterminar todos os judeus em todo o império. Um orgulho ferido se transformou em um dos primeiros e mais terríveis casos de ódio genocida contra o povo de Deus.
O lançamento do pur (Ester 3.7)
Para escolher o dia da matança, Hamã lançou o pur, palavra babilônica para sorte. Homem supersticioso, como muitos no império persa, ele deixava que o acaso e a busca por dias favoráveis ditassem as suas decisões. A sorte apontou um dia no décimo segundo mês, quase um ano depois. O nome pur daria origem à Festa de Purim, celebrada mais tarde pelos judeus.
O que Hamã não sabia é que aquele lançamento de sortes também estava sob o controle de Deus. As Escrituras ensinam que a sorte se lança no colo, mas toda a sua decisão vem do Senhor. Ao apontar uma data tão distante, o pur, na verdade, concedeu aos judeus quase um ano inteiro para se prepararem e para que a intervenção de Deus se desenrolasse. Até no acaso supersticioso de Hamã, Deus estava agindo em favor do seu povo.
Hamã persuade o rei (Ester 3.8-11)
Hamã foi ao rei com uma acusação genérica e caluniosa: existia um povo espalhado por todas as províncias, com leis próprias, que não obedecia às leis do rei, e por isso não convinha tolerá-lo. Ele nem sequer nomeou os judeus, mas propôs a sua destruição, oferecendo colocar dez mil talentos de prata nos cofres reais, uma soma enorme, para financiar a operação. Era uma quantia comparável a quase todo o tributo anual do império.
O rei, mais uma vez facilmente influenciado pelos seus oficiais, aceitou. Tirou o seu anel-selo, símbolo da autoridade real, e o entregou a Hamã, o inimigo dos judeus, dando-lhe poder para agir como bem entendesse. Com o anel, qualquer decreto teria a força de uma ordem do próprio rei. A ironia trágica é que Assuero mal sabia que a sua própria rainha, Ester, era judia e estaria incluída naquele plano de extermínio.
O decreto de morte (Ester 3.12-15)
Os escribas do rei foram convocados e o decreto foi escrito em nome de Assuero, selado com o seu anel e enviado a todas as províncias, em suas diversas línguas, pela eficiente rede de mensageiros do império. A ordem era aterradora: destruir, matar e exterminar todos os judeus, jovens e velhos, mulheres e crianças, em um único dia, e saquear os seus bens. Significativamente, as cartas foram distribuídas às vésperas da Páscoa, a festa que celebrava a libertação de Israel de um antigo inimigo.
Enquanto o decreto se espalhava, a cidade de Susã ficou perplexa e consternada, pois um édito de tamanha crueldade jamais partira da corte. E, num contraste chocante, o rei e Hamã sentaram-se para beber, indiferentes à catástrofe que haviam desencadeado. O povo de Deus parecia condenado, sem esperança humana. Mas o leitor sabe que, por trás do silêncio aparente, Deus não havia abandonado o seu povo.
Como Ester 3 aponta para Cristo
A ameaça de extermínio do povo de Deus por um inimigo movido pelo ódio aponta para a longa batalha entre o reino das trevas e o povo da promessa, que culmina em Cristo. Ao longo da história, o inimigo tentou repetidamente destruir a linhagem por meio da qual viria o Salvador. Assim como Deus preservou o seu povo do plano de Hamã, ele guardou a promessa messiânica até que, na plenitude dos tempos, Cristo nascesse para nos salvar.
O ódio de Hamã contra Mardoqueu e os judeus prenuncia a oposição que Cristo enfrentaria. Assim como um decreto injusto de morte foi lançado contra o povo inocente, um julgamento injusto condenou Jesus à cruz. Mas o que o inimigo pretendia para destruição, Deus transformou em salvação. A cruz, aparente vitória do mal, tornou-se o meio pelo qual Cristo derrotou o pecado, a morte e o próprio inimigo.
E a soberania de Deus, que controlava até o lançamento das sortes de Hamã, aponta para o domínio absoluto de Cristo sobre a história. Nada escapa ao seu controle, nem mesmo os planos mais perversos dos homens. Assim como Deus reverteu o decreto de morte em livramento, em Jesus temos a certeza de que nenhum plano contra o povo de Deus prevalecerá, e de que tudo coopera para o bem daqueles que o amam.
Três lições de Ester 3 para hoje
O ódio e o orgulho são portas para grandes males
Tudo começou com o orgulho ferido de Hamã diante de um homem que não se curvou, e se transformou em um plano de genocídio. O pecado, quando alimentado, cresce de forma assustadora. Somos chamados a vigiar o coração contra o orgulho e o ressentimento, sabendo que pequenas mágoas não tratadas podem se transformar em ódio destrutivo. Cultivar humildade e perdão nos protege desse caminho de morte.
Deus está no controle mesmo quando o mal parece vencer
No momento mais sombrio, com um decreto de morte selado e o rei indiferente, tudo parecia perdido. Mas o próprio pur que escolheu a data revela a soberania de Deus, que dava ao seu povo tempo para o livramento. Quando o mal parece triunfar, somos chamados a confiar que Deus continua no comando, capaz de reverter as situações mais desesperadoras para o cumprimento dos seus propósitos.
Fidelidade a Deus pode custar caro, mas vale a pena
A firmeza de Mardoqueu em se identificar como judeu desencadeou a crise, mas também fez parte do plano de Deus para o livramento. Ser fiel àquilo que somos diante de Deus nem sempre é o caminho mais fácil e pode nos expor a conflitos. Ainda assim, somos chamados a permanecer firmes na nossa identidade e fé, confiando que Deus honra e usa a fidelidade dos seus, mesmo quando ela traz oposição.
Perguntas frequentes sobre Ester 3
Em Ester 3, o rei Assuero promoveu Hamã e ordenou que todos se curvassem diante dele, mas Mardoqueu se recusou por ser judeu. Enfurecido, Hamã tramou exterminar todos os judeus do império. Ele lançou o pur para escolher a data, persuadiu o rei com calúnia e suborno, e um decreto de morte foi enviado a todas as províncias.
Hamã foi o oficial mais alto do reino, chamado agagita, título que o liga a Agague, rei dos amalequitas, antigos inimigos de Israel. Seu ódio começou quando Mardoqueu, um judeu, se recusou a curvar-se diante dele. O orgulho ferido se transformou em um plano de exterminar não só Mardoqueu, mas todo o povo judeu.
O pur é a palavra babilônica para sorte. Hamã, homem supersticioso, lançou o pur para escolher, pelo acaso, o dia em que os judeus seriam mortos. A sorte apontou uma data quase um ano depois. Esse termo deu origem ao nome da Festa de Purim, e mesmo o seu lançamento estava, na verdade, sob o controle de Deus.
Hamã fez uma acusação genérica e caluniosa, dizendo que havia um povo espalhado pelo império com leis próprias que não obedecia ao rei. Ofereceu dez mil talentos de prata para os cofres reais e propôs a destruição desse povo. O rei aceitou e entregou o seu anel-selo a Hamã, dando-lhe autoridade para agir.
A ameaça de extermínio do povo de Deus aponta para a batalha do inimigo contra a linhagem da promessa, que culmina em Cristo. O decreto injusto de morte prenuncia a condenação injusta de Jesus, que Deus transformou em salvação. E a soberania de Deus sobre o pur aponta para o domínio de Cristo sobre a história, em que nenhum plano contra o seu povo prevalece.
Referências
- BÍBLIA. Almeida Revista e Corrigida (ARC). Sociedade Bíblica do Brasil.
- WALTON, John H. Comentário histórico-cultural da Bíblia: Antigo Testamento.
- MARTIN, John A. Comentário do conhecimento bíblico: Antigo Testamento (seção de Ester).