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Deuteronômio 15 Estudo: Por que perdoar dívidas?

Diego Nascimento
Escrito por Diego Nascimento

Deuteronômio 15 me confronta com a relação entre obediência, generosidade e liberdade. Ao estabelecer leis sobre o cancelamento de dívidas, libertação de escravos e consagração dos primogênitos, Deus revela não só um sistema justo, mas um coração compassivo. Leio esse capítulo e sou lembrado de que meu relacionamento com Deus deve afetar como lido com o próximo, especialmente com quem mais precisa.

Qual é o contexto histórico e teológico de Deuteronômio 15?

Deuteronômio 15 faz parte do segundo discurso de Moisés, onde ele apresenta leis que reforçam o espírito da aliança. Escritas às vésperas da entrada em Canaã, essas instruções não se limitam a normas civis, mas revelam o coração de Deus por um povo justo, generoso e fiel. Como lembra Craigie (2013), a exposição da lei em Deuteronômio é moldada por preocupações pastorais e éticas, e não apenas jurídicas. O foco não é apenas o cumprimento técnico da lei, mas sua internalização na vida da comunidade.

O capítulo surge em continuidade ao tema da assistência ao necessitado, já apresentado em Deuteronômio 14.27–29. Ali, o dízimo trienal era designado para sustentar os levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas. Agora, o foco é a prática da justiça social por meio do perdão de dívidas, da libertação de escravos e da devolução do que pertence a Deus.

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John Walton observa que sistemas financeiros complexos já existiam no antigo Oriente Próximo, inclusive com períodos de cancelamento de dívidas. O Código de Hamurábi, por exemplo, previa limites para os juros e medidas de proteção contra abusos. Mas o que torna a lei de Israel singular é sua motivação: não era apenas política econômica, mas fidelidade a Deus e amor ao próximo (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018).

Como o texto de Deuteronômio 15 se desenvolve?

1. Por que as dívidas deviam ser canceladas? (Deuteronômio 15.1–6)

Moisés diz: “No final de cada sete anos as dívidas deverão ser canceladas” (Dt 15.1). Esse “cancelamento” (shemiṭṭāh) é mais do que uma suspensão temporária. Segundo a tradição babilônica, havia editos de perdão que proibiam a cobrança de dívidas antigas sob pena de punição (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018). Aqui, Deus está ensinando que a economia não deve estar acima das pessoas.

A lei previa que a cada sete anos, o credor cancelaria o débito do irmão israelita, mas manteria o direito de cobrar do estrangeiro (Dt 15.2-3). A lógica era que o povo da aliança devia viver em comunhão, sem permitir que um irmão fosse esmagado por dívidas.

O versículo 4 traz uma promessa ousada: “Assim, não deverá haver pobre algum entre vocês”. Mas essa promessa é condicional: “desde que obedeçam em tudo ao Senhor, ao seu Deus” (v. 5). Craigie destaca que essa é uma utopia viável, não uma ilusão ingênua. A pobreza só persistiria se houvesse desobediência.

A bênção é vinculada à generosidade: “emprestarão a muitas nações” (v. 6). Isso revela que a prosperidade de Israel dependia de sua justiça interna. Uma nação que cuida bem dos seus se torna um exemplo para os de fora.

2. Como agir diante do irmão necessitado? (Deuteronômio 15.7–11)

Moisés adverte: “Não endureçam o coração, nem fechem a mão” (v. 7). A generosidade não era opcional. Ela era um mandamento. Dar ao pobre com mão aberta e coração disposto era expressão de fé e temor a Deus.

Existe aqui um dilema prático: e se o pobre pedir empréstimo perto do ano da remissão? (v. 9). O risco de “perda” poderia fazer o credor hesitar. Mas a resposta divina é clara: não se trata de negócio, mas de compaixão. “Dê-lhe generosamente, e sem relutância no coração” (v. 10).

O versículo 11 é realista: “Sempre haverá pobres na terra”. Mas isso não é uma desculpa para omissão. É um chamado à ação contínua. Enquanto houver necessidade, deve haver generosidade.

3. O que a lei ensina sobre escravidão e liberdade? (Deuteronômio 15.12–18)

Moisés estabelece: “Se seu concidadão hebreu, homem ou mulher, vender-se a você…” (v. 12). Essa “venda” era consequência de dívidas impagáveis. O trabalho servia como forma de quitação. Mas havia um limite: seis anos. No sétimo, o escravo devia ser libertado.

Craigie observa que esses seis anos não estavam ligados ao ciclo sabático nacional, mas ao ciclo pessoal de servidão. E havia uma exigência adicional: “Não o mande embora de mãos vazias” (v. 13). O antigo senhor deveria prover ao liberto com generosidade (v. 14), lembrando-se de que Israel também foi escravo no Egito (v. 15).

A memória da libertação divina fundamentava o dever da libertação humana. Eu percebo aqui algo profundo: Deus quer que o seu povo viva com memória ativa da graça. Quem foi alcançado por misericórdia deve ser misericordioso.

Em alguns casos, o escravo podia escolher permanecer por amor. Nesse caso, teria a orelha furada (v. 17), tornando-se servo permanente. Esse ato não era de humilhação, mas de honra: ‘eḇeḏ ‘ôlām, servo eterno. A escolha pelo serviço era expressão de vínculo afetivo e segurança.

4. Qual era a importância dos primogênitos consagrados? (Deuteronômio 15.19–23)

O capítulo termina com a ordem: “Separe para o Senhor todo primeiro macho” (v. 19). Essa consagração dos primogênitos dos rebanhos era um lembrete constante de que tudo pertence a Deus.

O boi primogênito não podia ser usado no arado. O cordeiro primogênito não podia ser tosquiado. Eram separados, santificados. Se tivesse defeito, não era aceito como sacrifício, mas podia ser comido como animal comum (v. 21-22). Mas o sangue, como sempre, devia ser derramado no chão (v. 23).

Craigie explica que essas leis, ao final do capítulo, reforçam o princípio de que o melhor e o primeiro pertencem ao Senhor. E mais: elas treinavam o povo a reconhecer a bondade de Deus por meio de ações concretas, não apenas palavras.

De que forma Deuteronômio 15 aponta para o Novo Testamento?

O espírito deste capítulo se cumpre em Cristo. No coração da lei está o perdão, a liberdade e a generosidade — exatamente o que o Evangelho oferece.

Jesus é o cumprimento final da remissão das dívidas espirituais (Colossenses 2.14). Na cruz, ele cancelou o escrito de dívida que era contra nós. O que era impossível de pagar, foi quitado por graça.

A imagem do escravo que escolhe permanecer por amor (v. 16-17) também aponta para Cristo. Ele, sendo Senhor, se fez servo. E mesmo tendo liberdade, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Filipenses 2.7).

O mandamento de dar ao pobre sem relutância (v. 10) reaparece nas palavras de Jesus: “Dai a quem lhes pedir” (Mateus 5.42). E a certeza da bênção divina para o generoso também está em 2 Coríntios 9.6–8.

A consagração dos primogênitos encontra seu clímax em Jesus, o primogênito entre muitos irmãos (Romanos 8.29), o Cordeiro sem defeito, separado para Deus (1 Pedro 1.19).

O que Deuteronômio 15 me ensina para a vida hoje?

Ao ler Deuteronômio 15, sou desafiado a viver com mãos abertas. O mundo valoriza o acúmulo. Deus valoriza a generosidade. Não sou dono de nada, sou mordomo de tudo. Quando alguém precisa, meu coração e minha mão devem estar abertos.

A ideia de cancelar uma dívida pode parecer radical, mas me ensina a importância de não prender as pessoas ao passado. Quantas vezes insisto em cobrar, em exigir, em reter? Mas o Reino de Deus é um Reino de perdão.

Também aprendo sobre limites. O servo trabalhava seis anos. No sétimo, liberdade. Isso me lembra de respeitar o tempo do outro, sua dignidade e seu direito de recomeçar. Eu não devo explorar quem está em desvantagem. Devo restaurar.

A consagração do primogênito me ensina a dar o primeiro e o melhor a Deus. Isso serve para meu tempo, meus recursos, minha atenção. O que é de Deus não deve ser usado para meus próprios interesses. Ele vem primeiro.

Por fim, a memória do Egito me confronta: Lembre-se de que você foi escravo… (v. 15). Eu fui escravo do pecado. Deus me libertou. Como posso, então, negar misericórdia a quem precisa?


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