Ezequiel 32 me ensina que nenhum império, por mais poderoso que pareça, escapa do julgamento de Deus. Quando leio esse capítulo, percebo que a arrogância humana sempre tem um fim. O faraó egípcio, símbolo de força e esplendor, é descrito como um monstro domado e jogado entre os mortos. Isso me lembra que a glória humana é frágil diante da justiça do Senhor. O texto me confronta: onde tenho depositado minha confiança? Em minha força? Em minha posição? Ou em Deus?
Qual é o contexto histórico e teológico de Ezequiel 32?
O capítulo 32 de Ezequiel foi escrito no ano 585 a.C., cerca de dois meses após o profeta receber a notícia da queda de Jerusalém. Nesse momento, o povo já estava completamente derrotado e o Egito, que parecia uma esperança política para muitos judeus, havia falhado como aliado. Essa profecia é uma sequência dos oráculos contra as nações, especificamente contra o Egito.
Segundo Walton, Matthews e Chavalas (2018), o contexto egípcio envolvia uma tentativa frustrada de resistir à Babilônia. O faraó aqui retratado, provavelmente Uáfré (Hofra), é apresentado como arrogante, autoconfiante, mas impotente diante da mão de Deus.
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Daniel Block (2012) destaca que Ezequiel não está apenas descrevendo eventos geopolíticos. Ele quer mostrar teologicamente que Yahweh é soberano sobre as nações. A humilhação do Egito serve como advertência e consolo: Deus julga os orgulhosos e defende seu povo mesmo no exílio.
Como o texto de Ezequiel 32 se desenvolve?
1. O que representa o lamento sobre o faraó? (Ezequiel 32.1–2)
O oráculo começa com um lamento a ser entoado sobre o faraó. Mas esse lamento não é uma exaltação piedosa da sua glória — é uma sátira fúnebre. Deus ordena a Ezequiel que descreva o faraó como um monstro dos mares, um ser que agita as águas e causa confusão (v. 2).
Isso me impressiona: aos olhos dos homens, o faraó parecia um leão, majestoso e forte. Mas aos olhos de Deus, ele era um crocodilo perturbador, símbolo do caos e da rebeldia. Como destaca Block (2012), essa imagem evoca o conflito entre o Criador e os monstros do caos na mitologia do antigo Oriente Próximo.
2. Como Deus julga o monstro egípcio? (Ezequiel 32.3–10)
A partir do versículo 3, Yahweh anuncia seu julgamento. Ele vai lançar a rede sobre o monstro (v. 3), tirá-lo da água, lançá-lo em terra seca, e deixá-lo como banquete para aves e animais (v. 4). O que era símbolo de força agora será comida de urubus.
Os versículos 5 a 6 descrevem o Egito como uma carcaça espalhada pelos montes. O sangue encharca a terra. É uma imagem crua, mas poderosa. Deus está dizendo: “Nada pode resistir ao meu julgamento”.
Nos versos 7 e 8, o tom se torna cósmico. “Cobrirei o céu e escurecerei suas estrelas”. Isso me lembra Joel 2 e Apocalipse 6, onde juízo divino é acompanhado por perturbações celestiais. O que Deus faz com o Egito não é apenas um evento político, mas um sinal visível de que o Criador intervém na história.
3. Como as nações reagem à queda do Egito? (Ezequiel 32.9–10)
Os povos ao redor ficam aterrorizados. Eles veem o que aconteceu com o Egito e percebem: se o grande império caiu, ninguém está seguro. Deus diz: “Farei que muitos povos fiquem chocados ao vê-lo” (v. 10).
Essa parte me confronta. Quantas vezes olhamos para as potências humanas e achamos que são inabaláveis? Mas Ezequiel mostra que quando Deus intervém, até os reis tremem.
4. Quem executa o juízo de Deus? (Ezequiel 32.11–15)
No verso 11, Deus revela o instrumento do seu juízo: “A espada do rei da Babilônia”. Nabucodonosor é chamado de servo de Deus, como em Jeremias 27.6. Ele destrói o orgulho do Egito, abate seus rebanhos, e traz silêncio às águas (v. 13–14).
Essa imagem de águas que “fluem como azeite” (v. 14) é forte. Antes turbulentas, agora estão calmas — mas não por paz, e sim por desolação. Não há mais vida para agitar os rios. Block (2012) explica que essa metáfora é um símbolo de devastação total.
O propósito? “Então saberão que eu sou o Senhor” (v. 15). Esse é o refrão de Ezequiel. O juízo tem um fim pedagógico. Yahweh quer ser reconhecido como soberano.
5. O que o colofão final acrescenta? (Ezequiel 32.16)
O versículo 16 sela a profecia. É um lamento que será cantado pelas filhas das nações. O Egito, tão temido, agora é tema de canto fúnebre. Block destaca que isso reforça o tom sarcástico da profecia — o orgulho dos homens se torna motivo de escárnio público.
6. O que significa a descida do Egito ao sheol? (Ezequiel 32.17–32)
Na segunda metade do capítulo, a cena muda. O Egito é retratado descendo ao mundo dos mortos. A partir do versículo 17, Ezequiel descreve uma espécie de “galeria das nações caídas” no sheol. A Assíria, Elão, Meseque-Tubal, Edom, Sidom — todas estão lá.
O Egito, que se achava melhor, agora se junta a elas. “Acaso você merece mais favores do que os outros?” (v. 19). Não. Ele também foi abatido, também está entre os incircuncisos.
O sheol, como explicam Walton, Matthews e Chavalas (2018), era visto como o lugar para onde todos os mortos iam — mas com compartimentos distintos. Havia honra e vergonha mesmo entre os mortos. Os que morriam de forma ignominiosa, sem sepultura digna, iam para os recônditos sombrios.
Esse é o caso do Egito. Ele está no mesmo lugar dos incircuncisos, dos arrogantes, dos caídos pela espada. Não há honra. O v. 31 diz que o faraó verá tudo isso e “ficará consolado” — mas é ironia. Ele não se consola por justiça, mas por ver que outros estão tão arruinados quanto ele.
Como Ezequiel 32 se cumpre no Novo Testamento?
A imagem de um monstro abatido, lançado fora, lembra a derrota escatológica do dragão em Apocalipse 20. Assim como o Egito, Satanás — o grande opositor — será derrubado e exposto em vergonha.
Além disso, a cena do julgamento de nações remete ao ensino de Jesus em Mateus 25.31–46, onde as nações são reunidas diante do trono. Ezequiel antecipa, em sua linguagem, um juízo universal onde cada um recebe segundo suas obras.
Outro ponto importante é a ênfase no reconhecimento de Yahweh como soberano. No Novo Testamento, essa soberania é revelada plenamente em Cristo. “Todo joelho se dobrará… e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor” (Filipenses 2.10–11).
O que Ezequiel 32 me ensina para a vida hoje?
Ao ler Ezequiel 32, eu percebo o perigo do orgulho. O faraó achava que era invencível. Se via como leão, dominador. Mas Deus o via como um monstro agitando águas sujas. Isso me confronta: como Deus me vê?
Esse texto me ensina que Deus julga com justiça. Nenhuma nação, por mais poderosa, pode resistir à sua mão. Isso traz temor, mas também conforto. Porque o mesmo Deus que julga é o Deus que vê e defende os que confiam nele.
Também aprendo que a morte não é o fim da história. A forma como vivemos “na terra dos viventes” tem consequência eterna. O Egito foi lançado ao sheol não só por sua política, mas por sua arrogância e injustiça.
Outro ponto que me impacta é o contraste entre glória humana e realidade eterna. O Egito, com suas pirâmides, ouro e fama, termina como um cadáver abandonado, exposto, envergonhado. Isso me faz lembrar de 1 Pedro 1.24: “Toda glória humana é como a flor da erva: seca-se a erva, e a flor cai”.
Por fim, esse capítulo me faz valorizar ainda mais o Evangelho. Porque, em Cristo, não somos lançados no lugar dos incircuncisos e vergonhosos, mas somos recebidos como filhos. O sangue de Jesus nos dá um novo destino, uma nova identidade. Enquanto o Egito jaz em desonra, em Cristo somos ressuscitados com honra.
Referências
- BLOCK, Daniel I. O livro de Ezequiel. Tradução: Déborah Agria Melo da Silva et al. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.