Números 35 é um capítulo que me ensina sobre justiça, misericórdia e santidade. Ao tratar das cidades dos levitas e das cidades de refúgio, ele mostra como Deus se preocupa com a ordem social, com o cuidado dos seus ministros e com a integridade da terra prometida. Não há nada nesse capítulo que seja irrelevante. Tudo aponta para verdades espirituais profundas e práticas para a vida cristã hoje.
Qual é o contexto histórico e teológico de Números 35?
Estamos nas campinas de Moabe, diante do Jordão, prestes a entrar na Terra Prometida. Depois de anos de peregrinação no deserto, o povo de Israel está se organizando para estabelecer-se definitivamente em Canaã.
Os levitas, como tribo sacerdotal, não receberiam uma herança territorial como as demais tribos (veja Números 18.20–24). A razão é simples: sua herança era o próprio Senhor, e seu serviço estava diretamente ligado ao Tabernáculo e ao ensino da Lei.
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Por isso, Deus ordena que eles recebam cidades espalhadas por todo o território de Israel. Como destacam Walton, Matthews e Chavalas (2018), essa prática era comum no antigo Oriente Próximo, onde cidades específicas eram separadas para sacerdotes, funcionando como centros administrativos e religiosos. O objetivo era integrar os levitas à vida cotidiana das tribos e garantir seu sustento.
Além das 48 cidades designadas aos levitas, seis delas deveriam funcionar como cidades de refúgio (Nm 35.6). Isso revela um aspecto impressionante da justiça divina: o equilíbrio entre o castigo justo e a proteção do inocente. Deus não apenas pune o assassino intencional, mas também cuida de quem cometeu um erro sem dolo.
Eugene Merrill observa que essas cidades e suas pastagens permitiriam que os levitas servissem de forma eficaz, distribuídos entre o povo e não isolados em um só lugar (MERRILL, 1985, p. 255). Isso também os tornava acessíveis como conselheiros espirituais e professores da Lei.
Como o texto de Números 35 se desenvolve?
1. Por que os levitas recebem cidades? (Números 35.1–5)
O Senhor ordena a Moisés: “Ordene aos israelitas que, da herança que possuem, deem cidades para os levitas morarem” (Nm 35.2). Como eles não tinham uma terra própria, era responsabilidade das demais tribos sustentá-los com espaços adequados para viverem e pastorearem.
As cidades vinham acompanhadas de áreas de pastagem (Nm 35.4–5), com medidas específicas: quatrocentos e cinquenta metros em volta e novecentos metros de extensão em cada direção. Isso garantia autonomia básica para suas atividades.
Merrill explica que essas dimensões refletiam uma média prática para as cidades, com um modelo quadrado de 1.500 pés por lado, o que facilitaria a distribuição (MERRILL, 1985).
2. Qual o papel das cidades de refúgio? (Números 35.6–15)
Seis dessas cidades teriam uma função especial: ser cidades de refúgio para quem matasse alguém sem intenção (Nm 35.6). Elas ofereciam proteção contra o “vingador de sangue”, o parente da vítima que, segundo a cultura da época, tinha o direito de vingar a morte (Nm 35.12).
Essa prática da vingança familiar, embora comum, poderia facilmente gerar injustiças. Por isso, Deus instituiu um sistema que separava o culpado do inocente, permitindo um julgamento justo.
Walton e seus colegas observam que essa medida substitui ou amplia a ideia do altar como local de refúgio, protegendo o santuário de contaminação e oferecendo abrigo até o julgamento (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018).
3. Como a justiça era aplicada nesses casos? (Números 35.16–28)
A partir do verso 16, o texto descreve como distinguir o assassino intencional do homicida involuntário:
- Se alguém usar um objeto de ferro, pedra ou madeira de forma intencional, é assassino e deve ser executado (Nm 35.16–18).
- Se houver premeditação, ódio ou hostilidade, é considerado crime doloso (Nm 35.20–21).
- Mas se a morte ocorrer por acidente, sem inimizade, o autor pode ser absolvido e deve viver na cidade de refúgio até a morte do sumo sacerdote (Nm 35.22–25).
Essa última cláusula é notável. A morte do sumo sacerdote funciona como um marco de expiação. Até mesmo a justiça civil, nesse contexto, está ligada ao sacerdócio e à santidade da nação.
Como explica o Comentário Histórico-Cultural, a morte do sumo sacerdote removia a culpa de sangue, não apenas como um rito simbólico, mas como uma solução divina para que a terra não fosse contaminada (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018, p. 219).
4. Por que o sangue contamina a terra? (Números 35.29–34)
Deus conclui com uma forte advertência: “O sangue profana a terra, e não há expiação para a terra, por causa do sangue derramado nela, a não ser com o sangue de quem o derramou” (Nm 35.33).
A Terra Prometida era santa. Ela pertencia a Deus. Por isso, o derramamento de sangue, mesmo acidental, exigia uma solução espiritual. A justiça não era apenas uma questão civil, mas teológica.
Se o sangue do assassino não fosse derramado, ou se o homicida involuntário não cumprisse o tempo na cidade de refúgio, a terra ficaria contaminada. E, como nos dias de Caim, a terra deixaria de produzir (veja Gênesis 4.10–12).
Como Números 35 aponta para Cristo e o Novo Testamento?
Este capítulo carrega símbolos profundos do evangelho. As cidades de refúgio são uma sombra de Cristo.
Assim como alguém fugia para uma cidade de refúgio para não morrer injustamente, em Cristo nós encontramos refúgio da condenação eterna (veja Hebreus 6.18). Jesus é nossa cidade segura.
A morte do sumo sacerdote, que permitia ao acusado voltar à sua terra, aponta para a morte de Cristo, nosso Sumo Sacerdote eterno. Em Hebreus 9.12–14, aprendemos que Cristo entrou no Santo dos Santos uma vez por todas, com seu próprio sangue, obtendo eterna redenção.
Além disso, a ideia de santidade da terra fala diretamente à promessa da nova criação. Em Apocalipse 21, Deus habita com seu povo em uma nova terra, purificada de todo mal e violência. Nada impuro entrará ali.
O que Números 35 me ensina para a vida hoje?
Ao ler Números 35, aprendo que justiça e misericórdia precisam caminhar juntas. Deus condena o assassino, mas protege quem erra sem intenção. Ele não é nem permissivo nem vingativo. Ele é justo.
Também entendo que minha vida espiritual tem implicações comunitárias. Como a culpa de sangue contaminava a terra, meus pecados afetam mais do que a mim mesmo. Eles afetam minha família, minha igreja, minha cidade. Isso me leva a viver com mais responsabilidade.
Vejo que o serviço a Deus, como o dos levitas, exige dedicação e deve ser sustentado pela comunidade. Eles não tinham herança porque sua herança era o próprio Deus. Isso me lembra que servir ao Senhor é um chamado que vale mais que qualquer posse.
E quando penso nas cidades de refúgio, sou levado a refletir sobre onde está meu abrigo. Quando erro, quando sou acusado, quando preciso de graça, corro para Jesus. Ele é meu lugar seguro.
Por fim, a figura do sumo sacerdote que morre para que o exilado seja livre é poderosa demais. Isso me lembra que minha liberdade custou a vida de alguém. A graça não é barata. Cristo morreu para que eu voltasse à “minha propriedade”.
Essa verdade me constrange. Me chama à gratidão, à santidade e à vida com propósito.
Referências
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.
- MERRILL, Eugene H. “Numbers”, in: WALVOORD, John F.; ZUCK, Roy B. (org.). The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures. Vol. 1. Wheaton, IL: Victor Books, 1985.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.