O Salmo 118 é o último cântico do chamado “Hallel Egípcio” (Sl 113–118), tradicionalmente entoado pelos judeus durante a celebração da Páscoa. Composto em forma de litania, esse salmo celebra a fidelidade de Deus, sua aliança eterna com o povo de Israel e a salvação concedida mesmo diante de grandes adversidades.
É possível que seu uso litúrgico tenha se consolidado nas festas de peregrinação, especialmente na Festa dos Tabernáculos, como sugerem os elementos de cortejo presentes no versículo 27. Hernandes Dias Lopes entende que “trata-se de um salmo messiânico, pois revela com cores vivas o Messias, a pedra de esquina da igreja” (LOPES, 2022, p. 1261).
O pano de fundo mais provável é o período pós-exílico, no qual Israel retornava a Jerusalém após o cativeiro babilônico. No entanto, muitos estudiosos, como Charles Spurgeon e João Calvino, defendem que o salmo tem origem davídica. Para Calvino, “Davi nos informa que não foi por política ou força que tomou posse do reino de Saul, mas por designação divina” (CALVINO, 2009, p. 147).
Esse contexto reforça que o salmo é ao mesmo tempo histórico e profético. Ele celebra a intervenção de Deus na história, mas também antecipa a vinda do Messias, como a pedra rejeitada pelos homens, mas escolhida por Deus. Por isso, ele está entre os textos mais citados no Novo Testamento.
1. Ações de graças pela bondade de Deus (Sl 118:1–4)
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O salmo começa com um refrão repetido: “Dêem graças ao Senhor porque ele é bom; o seu amor dura para sempre.” Essa expressão aparece nos quatro primeiros versículos, dirigindo-se a Israel, aos sacerdotes e a todos os que temem o Senhor.
A palavra hebraica para “amor” aqui é chesed, que aponta para a fidelidade da aliança. Deus é constante mesmo quando seu povo não é. Como cristão, ao ler esses versículos, eu aprendo que a gratidão é um antídoto contra o esquecimento espiritual. A aliança de Deus não é sustentada pelo nosso desempenho, mas pela sua misericórdia.
Calvino ressalta: “Nunca entoaremos sinceramente os louvores de Deus, se Ele não nos conquistar com a doçura de sua bondade” (CALVINO, 2009, p. 149).
2. A salvação em meio à aflição (Sl 118:5–9)
O salmista lembra que clamou ao Senhor em meio à angústia e recebeu resposta: “O Senhor me respondeu, dando-me ampla liberdade” (v. 5). Essa expressão de liberdade remete ao livramento da opressão.
Nos versículos 6 a 9, a confiança se torna confissão: “O Senhor está comigo; não temerei. […] Melhor é buscar refúgio no Senhor do que confiar nos homens.” Essa oposição entre confiar em Deus e confiar em homens aparece em diversos salmos, como Salmo 146.
Ao ler esse trecho, eu sou lembrado de que a confiança no Senhor precisa ser prática. Em tempos de crise, é fácil recorrer a alianças humanas ou estratégias próprias. Mas aqui aprendemos que o refúgio verdadeiro é o Senhor.
3. Vitória sobre os inimigos (Sl 118:10–14)
O salmista descreve um cerco hostil: “Todas as nações me cercaram” (v. 10). A imagem das abelhas no versículo 12 reforça a ideia de um ataque doloroso e insistente. Ainda assim, ele triunfa: “Em nome do Senhor eu as derrotei.”
Calvino destaca que Davi “não podia contar com nenhum abrigo entre a arrogância dos homens cruéis […] e, por isso, menciona apenas o nome de Deus como seu livramento” (CALVINO, 2009, p. 153).
Essa vitória não é atribuída à força humana, mas à ação divina: “O Senhor é a minha força e o meu cântico; ele é a minha salvação” (v. 14). Essa frase ecoa Êxodo 15:2, o cântico de Moisés após a travessia do Mar Vermelho.
4. Cântico de vitória (Sl 118:15–18)
Agora, a cena se volta para os “tabernáculos dos justos”. Há júbilo e brados de vitória. A destra do Senhor é exaltada (v. 16). A mão direita simboliza poder, proteção e bênção.
O salmista declara com ousadia: “Não morrerei; mas vivo ficarei para anunciar os feitos do Senhor” (v. 17). Esse é o cântico de quem saiu do vale da morte.
Spurgeon comenta que “o Senhor foi sua força no combate e seu cântico depois da vitória” (LOPES, 2022, p. 1266). Como cristão, eu aprendo que viver é mais do que sobreviver: é viver para contar os feitos do Senhor.
5. A entrada pela porta da justiça (Sl 118:19–21)
A partir do versículo 19, há uma mudança litúrgica. O salmista pede: “Abram as portas da justiça para mim.” Ele deseja entrar no templo para agradecer.
Essa porta é chamada de “a porta do Senhor”, e apenas os justos entram por ela (v. 20). Essa justiça não é mérito humano, mas graça recebida.
No versículo 21, ele agradece por ter sido ouvido e salvo. A salvação pessoal se transforma em louvor comunitário. Como ocorre também em Salmo 116, a gratidão se expressa no culto público.
6. A pedra rejeitada e exaltada (Sl 118:22–24)
Essa é uma das passagens mais citadas no Novo Testamento: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.” O versículo 23 afirma que “isso vem do Senhor e é algo maravilhoso para nós”.
Segundo Walton, “a pedra angular era maior, primorosamente talhada, e exigia rituais especiais” (WALTON et al., 2018, p. 719). Era tanto pedra de esquina quanto pedra fundamental.
Calvino observa: “Davi lança desprezo sobre os que o rejeitaram, afirmando que foi escolhido pelo juízo divino para sustentar todo o edifício” (CALVINO, 2009, p. 161).
No versículo 24, o dia da exaltação é motivo de celebração: “Este é o dia em que o Senhor agiu; alegremo-nos e exultemos neste dia.”
7. A procissão e o clamor messiânico (Sl 118:25–27)
A súplica “Salva-nos, Senhor!” traduz o termo hebraico hoshana. Foi com essas palavras que Jesus foi recebido em Jerusalém (Mt 21:9). Ele é o bendito que vem em nome do Senhor.
O versículo 27 descreve uma procissão festiva, com ramos levados até o altar. Segundo Walton, “a ocasião provavelmente incluía danças e cortejos com ramos, simbolizando a abundância da aliança” (WALTON et al., 2018, p. 719).
Essa imagem aponta para a adoração plena e alegre, marcada pela gratidão e pelo reconhecimento da presença de Deus.
8. Confissão pessoal e doxologia (Sl 118:28–29)
O salmo termina como começou: com ação de graças. O salmista afirma: “Tu és o meu Deus; graças te darei!” A confissão é pessoal, mas se junta ao coro dos fiéis.
O versículo 29 repete o versículo 1, fechando o salmo com a certeza de que o amor do Senhor dura para sempre. Como cristão, eu sou chamado a renovar essa confissão diariamente.
Cumprimento das profecias
O Salmo 118 é um dos salmos mais citados no Novo Testamento. Ele é aplicado diretamente a Jesus em Mateus 21:42, Atos 4:11 e 1 Pedro 2:7. A pedra rejeitada é o Messias que o mundo descartou, mas que Deus exaltou.
Jesus mesmo se identifica com essa pedra. Ele é a porta da justiça (Jo 10:9), o fundamento da Igreja (1Co 3:11), o Rei que vem em nome do Senhor.
A entrada em Jerusalém é marcada pelo clamor “Hosana”, retirado diretamente deste salmo. O versículo 17 — “Não morrerei; mas vivo ficarei” — aponta para a ressurreição. O dia do Senhor (v. 24) é o dia da vitória de Cristo.
Significado dos nomes e simbolismos do Salmo 118
- Porta da justiça – Acesso à presença de Deus, que só é possível para os justificados pela fé.
- Pedra angular – Imagem messiânica; Cristo é o fundamento da Igreja.
- Hosana – Clamor por salvação, usado na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.
- Destra do Senhor – Simboliza o poder de Deus em ação salvadora.
- Cortejo com ramos – Alusão à Festa dos Tabernáculos e à entrada messiânica de Jesus.
Lições espirituais e aplicações práticas do Salmo 118
- A misericórdia de Deus é a base da nossa fé – Ela não muda e permanece para sempre.
- A oração na angústia abre portas de libertação – O Senhor responde e dá liberdade.
- Confiar no Senhor é melhor do que depender de homens – Os homens falham, Deus nunca falha.
- A vitória pertence a Deus, mesmo quando estamos cercados – Em nome do Senhor, os inimigos são vencidos.
- A disciplina de Deus é restauradora, não destrutiva – Ele nos corrige, mas não nos entrega à morte.
- Cristo é a pedra rejeitada que se tornou salvação – Ele é o centro da nossa fé e da Igreja.
- A adoração é resposta ao Deus que salva – Devemos entrar por suas portas com gratidão.
- A história da salvação deve ser contada e celebrada – Cada vitória é um testemunho vivo.
- Deus age de forma maravilhosa, acima da lógica humana – Nosso papel é confiar e nos alegrar.
- A exaltação de Cristo é o clímax da obra redentora de Deus – Esse é o dia que o Senhor fez!
Conclusão
O Salmo 118 é uma celebração da fidelidade de Deus em meio às rejeições humanas. Ele revela um caminho de angústia, livramento, vitória e louvor. Ao mesmo tempo em que reflete a trajetória pessoal do salmista, aponta para o cumprimento pleno em Cristo — a pedra angular que os homens rejeitaram, mas que Deus exaltou.
Como cristão, eu aprendo que, mesmo quando rejeitado, o plano de Deus prevalece. A minha segurança está no nome do Senhor. E a vitória final, a salvação e o cântico de triunfo pertencem a Ele.
Referências
- CALVINO, João. Salmos, org. Franklin Ferreira, Tiago J. Santos Filho e Francisco Wellington Ferreira; trad. Valter Graciano Martins. 1. ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2009. v. 4, p. 147–168.
- LOPES, Hernandes Dias. Salmos: O Livro das Canções e Orações do Povo de Deus, org. Aldo Menezes. 1. ed. São Paulo: Hagnos, 2022. v. 1 e 2, p. 1261–1273.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento, trad. Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 719.