Ezequiel 22 me ensina que a decadência espiritual de um povo começa quando seus líderes abandonam a justiça, e sua sociedade fecha os olhos para Deus. Ao denunciar a corrupção em Jerusalém, Ezequiel expõe não apenas atos imorais, mas uma traição coletiva à aliança com Yahweh. Enquanto o povo seguia seus próprios interesses, Deus procurava alguém que se colocasse na brecha — e não encontrou ninguém. Isso me confronta. Porque no meio da destruição, o Senhor ainda esperava por intercessores. E às vezes, essa espera é silenciosa… até que o juízo chega.
Qual é o contexto histórico e teológico de Ezequiel 22?
O capítulo 22 pertence à última fase do ministério de Ezequiel antes da queda definitiva de Jerusalém, datado por volta de 586 a.C. A cidade estava prestes a ser invadida pelos babilônios, e o profeta, do exílio na Babilônia, denuncia os pecados que justificavam o juízo divino. Ele divide sua mensagem em três partes: acusação (vv. 1–16), sentença (vv. 17–22) e diagnóstico final (vv. 23–31).
Segundo Block (2012), o oráculo segue o gênero profético rîb, uma espécie de discurso jurídico onde Deus, como juiz, apresenta acusações formais contra Israel. Mas diferente de outras passagens, Ezequiel não reconstrói a história nacional; ele aponta diretamente os pecados atuais da cidade e seus líderes — com linguagem jurídica, imagens fortes e apelo emocional.
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Para Walton, Matthews e Chavalas (2018), o capítulo ecoa o Código de Santidade de Levítico 18–20. A lista de transgressões revela a ruptura da sociedade com os princípios da aliança, tanto na esfera moral quanto cúltica. A metáfora da escória na fornalha (vv. 18–22) reforça o retrato de uma purificação severa, uma espécie de “refinamento compulsório” por meio do exílio e do fogo da ira divina.
A cidade santa é chamada de ʿîr haddāmîm — “cidade sanguinária”. Isso já havia sido usado contra Nínive por Naum, mas agora é aplicado a Jerusalém, expondo o quanto a capital havia se tornado semelhante às nações que tanto desprezava.
Como o texto de Ezequiel 22 se desenvolve?
1. Por que Jerusalém é chamada de cidade sanguinária? (Ezequiel 22.1–5)
Deus inicia o julgamento com uma convocação ao profeta: “Você julgará essa cidade sanguinária?” (v. 2). Ezequiel é colocado como o porta-voz do juiz divino. A cidade que deveria ser o centro da adoração pura tornou-se o epicentro da injustiça e da idolatria.
“Você se tornou culpada por causa do sangue que derramou e por ter se contaminado com os ídolos” (v. 4). O sangue derramado se refere a crimes, assassinatos e até corrupção institucional. Os ídolos, por sua vez, representam a infidelidade cúltica. A consequência: zombaria entre as nações (v. 5). A cidade que deveria inspirar reverência tornou-se piada internacional.
Segundo Block (2012), a repetição do termo “sangue” e a estrutura paralela da denúncia conferem força poética ao discurso, como um martelo que bate repetidamente no mesmo ponto: a culpa de Jerusalém é inegável.
2. Quais são os pecados apresentados como evidência? (Ezequiel 22.6–12)
A lista que se segue é devastadora. Inclui desprezo aos pais (v. 7), opressão aos estrangeiros, órfãos e viúvas (v. 7), profanação dos sábados (v. 8), calúnia (v. 9), idolatria, relações sexuais incestuosas, adultério, suborno, extorsão e ganância (vv. 10–12).
Ezequiel estrutura os pecados de maneira que remete ao Decálogo e ao Código de Santidade. A ordem dos mandamentos é violada sistematicamente: do culto (v. 8) à moral sexual (vv. 10–11) e à justiça social (vv. 7, 12).
Walton, Matthews e Chavalas (2018) observam que a lista lembra os rituais babilônicos de purificação, nos quais os pecados eram nomeados antes do ritual de absolvição. Mas aqui não há absolvição — há condenação. E o veredito é: “Você se esqueceu de mim” (v. 12). Essa é a raiz de todos os pecados.
3. Como Deus responde a essa corrupção? (Ezequiel 22.13–16)
Deus bate as mãos em indignação (v. 13), expressão que transmite repulsa e lamento. “Será que a sua coragem suportará… quando eu tratar com você?” (v. 14). É um lembrete de que o juízo será pessoal. Não será impessoal como uma guerra qualquer, mas ação direta do próprio Yahweh.
O castigo é claro: dispersão entre as nações e vergonha pública (vv. 15–16). A “impureza” será removida à força. Aqui, Ezequiel já anuncia o exílio como realidade inevitável.
4. O que significa a metáfora da escória na fornalha? (Ezequiel 22.17–22)
Nesta seção, Deus compara Israel à escória dos metais: “cobre, estanho, ferro e chumbo deixados na fornalha” (v. 18). A prata, que deveria ser o metal puro, é ausente — tudo é escória.
Deus mesmo assume o papel de fundidor: “ajuntarei vocês dentro da cidade e os fundirei” (v. 20). Jerusalém vira o forno, o lugar do juízo purificador. A imagem é forte: o sopro divino — em vez de um fole — inflama a fornalha da ira.
Segundo Block (2012), essa metáfora não se limita a punição; envolve transformação. Os impuros são colocados sob fogo para que o que for precioso (o remanescente) possa emergir. Mas o processo será doloroso, ardente, e cheio de perdas.
5. Por que Deus não encontrou ninguém na brecha? (Ezequiel 22.23–31)
A última parte do capítulo amplia a denúncia: a corrupção atingiu toda a estrutura da sociedade.
- Príncipes: “devoram pessoas… fazem muitas viúvas” (v. 25).
- Sacerdotes: “profanam o que é sagrado… não ensinam a diferença entre o santo e o comum” (v. 26).
- Oficiais: “derrubam vidas por lucro” (v. 27).
- Profetas: “dizem que Deus falou quando Ele não falou nada” (v. 28).
- Povo da terra: “oprime os pobres e os necessitados” (v. 29).
A decadência é total. Ninguém se salva. Todos os níveis da sociedade estão contaminados. E aí vem a frase mais triste do capítulo: “Procurei entre eles um homem… mas não encontrei nem um só” (v. 30).
Essa ausência de intercessores não significa apenas falta de piedade pessoal. Representa a falência moral da nação. Ninguém se levantou em defesa da verdade, da justiça ou do arrependimento.
Como Ezequiel 22 se cumpre no Novo Testamento?
Ezequiel 22 prepara o terreno para a necessidade de um novo tipo de liderança espiritual. O fracasso dos sacerdotes, profetas e governantes aponta para a vinda do verdadeiro Pastor de Israel.
Em João 10, Jesus se apresenta como o bom pastor, que dá a vida pelas ovelhas. Ele não age por interesse, não devora o rebanho, não se cala diante do perigo. Ele se coloca na brecha — literalmente.
A figura do intercessor que Ezequiel não encontra é realizada em Jesus. Como diz Hebreus 7.25: “Ele é capaz de salvar definitivamente aqueles que por meio dele aproximam-se de Deus, pois vive sempre para interceder por eles”.
Além disso, a ideia de purificação pelo fogo se cumpre em Cristo. Em vez de queimar o povo, Deus derrama sua ira sobre o Filho (cf. Isaías 53.5). O que era escória foi redimido pela graça.
O que Ezequiel 22 me ensina para a vida hoje?
Ao ler Ezequiel 22, eu percebo que Deus não tolera uma fé que ignora a justiça. Ele não é apenas um Deus de culto, mas um Deus de caráter. Quando líderes usam o nome d’Ele para enganar, o juízo vem. Quando a igreja perde a sensibilidade para o sofrimento dos pobres, órfãos e viúvas, ela se torna cidade sanguinária.
Aprendo também que esquecer de Deus não é algo acidental. É um processo. Começa com descaso pelos mandamentos, depois pela adoração, e finalmente pelas pessoas. Quando nos acostumamos com o pecado institucionalizado, deixamos de sentir a ausência de Deus.
A pergunta que Ezequiel lança ainda ecoa: Haverá alguém na brecha? Alguém que ore, que clame, que defenda a verdade mesmo quando for impopular? Esse chamado é para mim também.
Outra lição é sobre purificação. Às vezes Deus permite situações difíceis para nos refinar. A fornalha não é um fim em si — é o meio de nos tornar mais puros, mais dependentes, mais parecidos com Ele.
E por fim, sou confrontado com a verdade de que a vida com Deus exige coerência. Não posso me apegar à promessa da aliança e ignorar suas exigências. O favor divino não é automático. Ele anda de mãos dadas com a obediência.
Referências
- BLOCK, Daniel I. O livro de Ezequiel. Tradução: Déborah Agria Melo da Silva et al. 1. ed. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2012.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Tradução: Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.