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Ezequiel 28 Estudo: O rei de Tiro é Satanás?

Diego Nascimento
Escrito por Diego Nascimento

Ezequiel 28 me mostra que o orgulho humano é incapaz de sustentar grandezas que não procedem de Deus. O rei de Tiro, tão sábio e belo aos próprios olhos, acabou reduzido a pó diante do juízo do Senhor. Esse capítulo me alerta: tudo o que não está firmado na humildade diante de Deus será destruído. A arrogância nunca é neutra — ela é idolatria disfarçada.

Qual é o contexto histórico e teológico de Ezequiel 28?

O capítulo 28 de Ezequiel se insere no bloco de oráculos contra as nações (Ezequiel 25–32), mais especificamente na sequência de profecias contra Tiro. Tiro era uma das mais poderosas cidades fenícias, referência em comércio marítimo, luxo e influência cultural. A cidade ficava numa ilha fortificada no mar Mediterrâneo e, por sua localização, representava uma potência quase inexpugnável.

O texto foi escrito por Ezequiel, um sacerdote e profeta que vivia no exílio babilônico por volta de 590 a.C. O capítulo 28 é dirigido tanto ao “príncipe” (vv. 1–10) quanto ao “rei de Tiro” (vv. 11–19), numa progressão retórica que parte do humano para o simbólico. A linguagem se torna cada vez mais elevada, fazendo uso de imagens do Éden, do querubim, e do monte santo de Deus.

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Daniel Block (2012) mostra que esses dois discursos formam uma única unidade literária que denuncia a arrogância do governante de Tiro. O príncipe se exaltou ao ponto de se declarar divino. Em resposta, Ezequiel o compara a uma figura do paraíso, que foi criada bela e perfeita, mas se perdeu por causa do orgulho. A profecia culmina na humilhação total: da glória ao pó.

Segundo Walton, Matthews e Chavalas (2018), essa linguagem se aproxima das tradições do antigo Oriente Próximo, especialmente da iconografia assíria e da mitologia ugarítica, mas reinterpretada teologicamente. O rei é apresentado como um “querubim ungido”, mas a sua queda mostra que todo privilégio é responsabilidade diante de Deus — e não plataforma para idolatria.

Como o texto de Ezequiel 28 se desenvolve?

1. Qual a acusação contra o príncipe de Tiro? (Ezequiel 28.1–10)

O texto começa com um julgamento direto: “No orgulho do seu coração você diz: ‘Sou um deus’” (v. 2). O príncipe de Tiro — provavelmente Etbaal III — não apenas se considerava poderoso, mas invocava para si prerrogativas divinas. Instalado no coração dos mares, ele se via como invulnerável, entronizado como uma divindade.

Ezequiel, no entanto, o confronta com a verdade: “você é um homem, e não um deus” (v. 2). Mesmo que sua sabedoria e riqueza fossem notórias — “mais sábio que Daniel” (v. 3) —, isso não o tornava divino. Pelo contrário, foi essa autoconfiança inflada que causou sua queda.

Daniel Block (2012) observa que há uma estrutura judicial clara: nos versículos 2–5 temos a acusação (a soberba), e nos versículos 6–10, a sentença (a destruição). O Senhor afirma que enviará estrangeiros — os babilônios — contra Tiro. A cidade será devastada, e o príncipe será morto de forma vergonhosa: “terá a morte dos incircuncisos nas mãos de estrangeiros” (v. 10).

Essa linguagem tem forte carga teológica. Em Israel, os incircuncisos eram símbolo de impureza e rejeição da aliança. Portanto, morrer como um incircunciso era o ápice da humilhação. Ezequiel mostra que o caminho do orgulho leva sempre à ruína.

2. Quem é o rei descrito no lamento? (Ezequiel 28.11–19)

O segundo oráculo, em forma de lamento, intensifica o retrato do governante de Tiro. Ele é descrito como “o modelo de perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita beleza” (v. 12). Estava no Éden, adornado com pedras preciosas — uma clara alusão ao luxo, mas também ao status elevado concedido por Deus.

No verso 14, ele é chamado de “querubim guardião”, alguém estabelecido por Deus no “monte santo”, caminhando entre “pedras fulgurantes”. Essa descrição remete a um ser exaltado, próximo da glória divina, com acesso privilegiado à presença de Deus.

Mas, como Adão, ele caiu. “Você era inculpável… até que se achou maldade em você” (v. 15). A corrupção do comércio, a violência e o orgulho o levaram à queda. “Por isso eu o lancei em desgraça para longe do monte de Deus” (v. 16).

John H. Walton e sua equipe (2018) explicam que a figura do Éden é usada não de forma literal, mas como símbolo de bênção extrema, que foi profanada. A presença das pedras preciosas, semelhantes às do peitoral sacerdotal de Êxodo 28, reforça essa imagem. Mas o rei não apenas perdeu esse status: ele foi destruído por dentro. “Fiz sair de você um fogo, que o consumiu” (v. 18).

Essa imagem sugere que a ruína nasceu do próprio pecado. O orgulho, como fogo interior, consumiu o rei de Tiro. Ele, que era um espetáculo de beleza, tornou-se um espetáculo de vergonha: “fiz de você um espetáculo para os reis” (v. 17).

O rei de Tiro é uma figura de Satanás?

Embora muitos interpretem Ezequiel 28.11–19 como uma referência direta à queda de Satanás, essa não é a leitura primária do texto no seu contexto original. Ezequiel está se referindo ao rei humano de Tiro — provavelmente Etbaal III — usando linguagem simbólica e elevada para destacar seu orgulho e sua queda trágica. O texto não afirma literalmente que ele seja Satanás.

No entanto, a linguagem usada evoca temas espirituais profundos:

  • O rei é descrito como “modelo da perfeição” e “no Éden, jardim de Deus” (Ez 28.12-13).
  • Ele é chamado de “querubim ungido”, que caminhava “entre pedras fulgurantes” (Ez 28.14).
  • Foi expulso por causa da sua corrupção e violência (Ez 28.16-17).

Essas imagens ultrapassam a realidade de qualquer rei humano e remetem à queda de um ser glorioso que tentou se igualar a Deus. Por isso, a tradição cristã passou a enxergar aqui uma figura tipológica de Satanás, o ser criado com beleza e sabedoria, que se rebelou contra o Criador (cf. 2Co 11.14; 1Tm 3.6).

Daniel Block argumenta que a metáfora do querubim revela a posição exaltada do rei e sua missão de guardião, e que sua queda foi resultado da corrupção do coração. Para Block, não é Satanás o foco do texto, mas sim o modelo de arrogância e queda representado pelo rei.

Já o Comentário Histórico-Cultural esclarece que o texto jamais liga explicitamente esse personagem a Satanás e que a teologia israelita da época ainda não possuía a visão desenvolvida sobre Satanás encontrada no Novo Testamento.

Ainda assim, a teologia cristã pode reconhecer um princípio espiritual presente aqui: o orgulho é sempre satânico em sua essência, e a autodeificação — como a do rei de Tiro — reflete o mesmo impulso do Diabo descrito em Isaías 14 e depois no Apocalipse (Ap 12.9; 20.2).

3. O que representa o julgamento de Sidom? (Ezequiel 28.20–24)

A profecia se estende a Sidom, cidade irmã de Tiro. Embora menos poderosa, Sidom também será julgada por Yahweh: “Estou contra você, Sidom, e manifestarei a minha glória dentro de você” (v. 22).

A praga e o derramamento de sangue (v. 23) revelam a ação soberana de Deus, mesmo sobre povos que não pertencem à aliança. A razão é teológica: “Então eles saberão que eu sou o Senhor”. Não se trata de mera punição política, mas de uma revelação divina.

4. Qual é a promessa final para Israel? (Ezequiel 28.25–26)

Em contraste com os juízos anteriores, os versículos finais trazem esperança para o povo de Deus. Yahweh promete restaurar Israel, reunindo-o das nações e manifestando sua santidade diante de todos. “Então eles viverão em sua própria terra, a qual dei ao meu servo Jacó” (v. 25).

A promessa inclui segurança, prosperidade e liberdade do escárnio dos inimigos. “Construirão casas e plantarão vinhas; viverão em segurança” (v. 26). Essa visão aponta para um futuro em que Deus, e não o orgulho humano, será a base da restauração.

Como Ezequiel 28 se cumpre no Novo Testamento?

Embora Ezequiel 28 não tenha uma citação direta no Novo Testamento, suas imagens e temas reaparecem em vários contextos.

Primeiro, a figura de alguém exaltado que cai por orgulho se encaixa no que Filipenses 2.5–11 descreve sobre Cristo: ao contrário do rei de Tiro, Jesus “não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se”, mas se humilhou até a morte. O Senhor exalta os humildes e abate os soberbos.

Segundo, a tradição cristã identificou no rei de Tiro uma figura de Satanás. Embora o texto se refira a um ser humano, os paralelos com a queda do inimigo de Deus são fortes: orgulho, exaltação própria, expulsão do Éden, e julgamento pelo fogo. Em Lucas 10.18, Jesus diz: “Eu vi Satanás caindo do céu como relâmpago” — e Apocalipse 12 descreve sua queda definitiva.

Por fim, a restauração de Israel anunciada no final do capítulo encontra eco em Romanos 11, onde Paulo afirma que “todo Israel será salvo”. A promessa de reunir o povo, dar-lhes segurança e restaurar sua terra tem cumprimento escatológico em Cristo.

O que Ezequiel 28 me ensina para a vida hoje?

Ao ler Ezequiel 28, sou desafiado a olhar para o meu coração. Será que estou buscando reconhecimento além do que Deus me concedeu? Será que, como o rei de Tiro, me deslumbro com minha própria sabedoria ou sucesso?

Deus não condena a beleza, a inteligência ou a prosperidade. Ele condena o orgulho. O rei de Tiro foi dotado de sabedoria e honra, mas se corrompeu por amor ao próprio esplendor. “Seu coração tornou-se orgulhoso por causa da sua beleza” (v. 17). Isso me ensina que até os dons de Deus podem se tornar ídolos se eu os usar para minha glória.

Aprendo também que toda arrogância será julgada. Nenhuma fortaleza — nem mesmo Tiro, assentada entre os mares — é suficiente para escapar da mão de Deus. A falsa segurança é um abismo disfarçado de trono.

Além disso, vejo que Deus é o Senhor de todas as nações. Ele julga Tiro, Sidom e, ao mesmo tempo, promete restaurar Israel. Isso me lembra que Deus está agindo na história, mesmo quando parece que o mal está vencendo.

Por fim, recebo esperança. O mesmo Deus que julga com justiça também restaura com graça. “Eles viverão em segurança… construirão casas e plantarão vinhas” (v. 26). O futuro do povo de Deus não está nas mãos dos reis, mas nas promessas do Senhor.


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