O Salmo 65 é atribuído a Davi e classificado como um cântico de louvor e gratidão. Seu pano de fundo está relacionado ao culto realizado no templo de Jerusalém, possivelmente em ocasiões festivas como a Festa das Semanas (Pentecostes) ou a Festa das Cabanas, quando o povo celebrava as colheitas com alegria.
Não há menção direta a um evento histórico específico, mas seu tom aponta para um momento de renovação espiritual e de bênçãos recebidas por Israel, sobretudo em relação à provisão de chuvas e colheitas abundantes.
No Antigo Oriente Próximo, os povos frequentemente ligavam a fertilidade da terra ao favor dos deuses. Israel, por sua vez, reconhecia que toda a provisão vinha exclusivamente do Senhor. O templo, como lugar central do culto, aparece no salmo como o ponto de encontro entre o povo e seu Deus.
A linguagem do salmista expressa o desejo profundo de estar na presença de Deus, que não apenas habita entre o seu povo, mas também governa toda a criação com justiça e poder.
Como aponta Walton, “embora o complexo do Templo fosse primordialmente o ambiente da ordem sacerdotal, era desejo de todo membro da comunidade da aliança ‘habitar’ na presença de Deus” (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018, p. 697). O salmo transita entre o espaço sagrado do templo (vv. 1–4), o domínio global de Deus (vv. 5–8) e a fertilidade da natureza (vv. 9–13), mostrando a abrangência do cuidado divino.
O Deus que perdoa e acolhe (Salmo 65:1–4)
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“Tu que ouves a oração, a ti virão todos os homens.” (v. 2)
O salmo começa com uma afirmação de louvor contido: “O louvor te aguarda em Sião”. A expressão hebraica também pode ser lida como “há silêncio diante de ti”, indicando reverência. Calvino observa que “às vezes quedar-se em silêncio diante de Deus pode ser um ponto alto do louvor” (CALVINO, 2009, p. 586).
O versículo 2 celebra a abertura universal do acesso a Deus. Ainda que escrito em um contexto judaico, Davi aponta para uma realidade futura em que “a ti virão todos os homens”, prenunciando o chamado dos gentios à fé, algo que se cumpre em Cristo.
O verso 3 é uma confissão: “Quando os nossos pecados pesavam sobre nós, tu mesmo fizeste propiciação por nossas transgressões”. Essa ideia ecoa Isaías 59:1–2, onde os pecados do povo causam separação entre Deus e os homens. Mas, como lembra Calvino, “a reconciliação com Deus é granjeada através da remissão gratuita” (CALVINO, 2009, p. 588).
O verso 4 expressa a alegria de ser escolhido por Deus: “Como são felizes aqueles que escolhes e trazes a ti, para viverem nos teus átrios!”. A eleição divina, segundo o salmista, não é mérito humano, mas graça soberana. Davi reconhece que os verdadeiros adoradores são aqueles a quem Deus atrai e satisfaz com “as bênçãos da tua casa”.
O Deus que governa e sustenta (Salmo 65:5–8)
“Tu nos respondes com temíveis feitos de justiça, ó Deus, nosso Salvador, esperança de todos os confins da terra…” (v. 5)
A segunda seção do salmo amplia o foco: de Sião para o mundo. O Deus que perdoa é também o Deus que reina. Os “feitos temíveis” de Deus são intervenções históricas, como o livramento do Egito (Êx 14.30–31) e a preservação de seu povo.
O verso 6 declara que Deus “firmou os montes pela sua força”. O poder criativo de Deus não apenas forma a terra, mas a sustenta. Calvino comenta que “até mesmo as estruturas mais sólidas do mundo dependem de Deus para existir” (CALVINO, 2009, p. 592).
O verso 7 associa o poder de Deus à sua ação sobre o mar e os povos: “Tu que acalmas o bramido dos mares… e o tumulto das nações”. Segundo Walton, o salmista pode estar aludindo ao conflito cósmico presente nas mitologias da Mesopotâmia, como a derrota de Tiamat por Marduque, ou de Yamm por Baal — mas sempre para afirmar a supremacia de Yahweh sobre todos os deuses e forças (WALTON; MATTHEWS; CHAVALAS, 2018, p. 698).
No verso 8, o temor diante dos “sinais” de Deus se espalha até os confins da terra. E, paradoxalmente, esses mesmos sinais despertam “canções de alegria” do Oriente ao Ocidente. Deus é temido e adorado por sua majestade.
O Deus que provê abundantemente (Salmo 65:9–13)
“Cuidas da terra e a regas; fartamente a enriqueces.” (v. 9)
Na última seção, o salmista celebra a providência de Deus na fertilidade da terra. Ele visita a terra com a chuva, prepara o solo, irriga os sulcos, e abençoa a colheita (vv. 9–10). O versículo 11 resume essa ideia: “Coroas o ano com a tua bondade, e por onde passas emana fartura”.
Calvino destaca que essa provisão é constante: “não existe sequer um ano que não seja coroado com alguma medida de excelência” (CALVINO, 2009, p. 595). As imagens poéticas seguem até o final: desertos cobertos de pastagens, colinas alegres, campos repletos de rebanhos, vales vestindo-se de espigas. Tudo canta ao Deus da providência (vv. 12–13).
A beleza dessa descrição evoca a imagem de uma natureza viva, como um coral que louva ao Criador. Como diz Hernandes Dias Lopes: “pastagens, montes, outeiros e vales, todos experimentaram sua profunda provisão, e juntos se regozijaram ante essa evidência de seu amor e cuidado” (LOPES, 2022, p. 699).
Cumprimento das profecias
O Salmo 65 antecipa várias verdades que se cumprem plenamente em Cristo. Em primeiro lugar, a ideia de que “a ti virão todos os homens” (v. 2) aponta para a inclusão dos gentios no plano de salvação, como Paulo afirma em Efésios 2:11–22.
Além disso, a figura do Deus que acalma o mar e as nações (v. 7) encontra eco direto na pessoa de Jesus. Em Marcos 4:39, Jesus repreende o vento e o mar com sua palavra, revelando sua divindade e autoridade sobre o caos.
Por fim, a abundante provisão descrita nos versículos finais prefigura a restauração final da criação, como descrito em Apocalipse 21, onde Deus faz nova todas as coisas, inclusive a terra.
Significado dos nomes e simbolismos do Salmo 65
- Sião – Representa o centro do culto, a presença de Deus entre seu povo. Sião simboliza tanto o templo físico quanto a realidade espiritual do povo escolhido.
- Átrios – Espaços do templo onde o povo se aproximava de Deus. Representam comunhão e proximidade com o Senhor.
- Bramido dos mares – Símbolo do caos, da instabilidade, tanto natural quanto social. O poder de Deus em acalmá-lo demonstra sua soberania.
- Riachos de Deus – Uma figura poética para a provisão divina. Representam a fonte inesgotável que emana de Deus, diferente dos recursos humanos limitados.
- Campos, vales e colinas – Elementos da criação que respondem à bondade de Deus. Simbolizam a alegria da criação em louvor ao Criador.
Lições espirituais e aplicações práticas do Salmo 65
- Deus ouve nossas orações e perdoa nossos pecados – Mesmo quando nos sentimos indignos, Ele se inclina com misericórdia e restaura nossa comunhão.
- A eleição divina é uma dádiva, não um mérito – Como cristão, eu aprendo que fui escolhido por graça e chamado a viver na presença de Deus com gratidão.
- A presença de Deus satisfaz mais do que qualquer outra coisa – Transbordar da bondade de sua casa é o maior prazer da alma.
- O Senhor governa o mundo com justiça e poder – Ele firma os montes e acalma os mares; nada escapa ao seu domínio.
- A natureza celebra a providência de Deus – A terra fértil, os campos verdejantes e as chuvas mostram que Ele sustenta cada detalhe da vida.
- Louvar a Deus vai além das palavras – Envolve reconhecer seu cuidado diário em cada colheita, em cada provisão, em cada amanhecer.
Conclusão
O Salmo 65 é um convite a louvar a Deus com profundidade e consciência. Ele nos conduz do templo à criação, da oração pessoal à celebração universal. Davi nos lembra que Deus não é apenas o Senhor de Israel, mas o Salvador do mundo. Seu perdão, seu poder e sua provisão revelam um Deus presente, justo e generoso.
Ao ler o Salmo 65, eu sou desafiado a reconhecer que tudo o que tenho vem d’Ele — desde o perdão dos meus pecados até o alimento sobre a mesa. O verdadeiro louvor nasce de um coração que vê a mão de Deus em tudo e se curva com gratidão.
Referências
- CALVINO, João. Salmos, org. Franklin Ferreira, Tiago J. Santos Filho, e Francisco Wellington Ferreira. Trad. Valter Graciano Martins. 1. ed. São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2009. v. 2, p. 586–601.
- LOPES, Hernandes Dias. Salmos: O Livro das Canções e Orações do Povo de Deus, org. Aldo Menezes. 1. ed. São Paulo: Hagnos, 2022. v. 1 e 2, p. 691–699.
- WALTON, John H.; MATTHEWS, Victor H.; CHAVALAS, Mark W. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Antigo Testamento. Trad. Noemi Valéria Altoé da Silva. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2018, p. 697–698.