Atos 18 revela um dos momentos mais estratégicos da expansão do Evangelho no primeiro século. Aqui, Paulo chega à famosa cidade de Corinto, enfrenta oposição, persevera, vê o nascimento da igreja local e, mais adiante, o ministério de Apolo se destaca. Ao ler esse capítulo, percebo como Deus age tanto por meio dos desafios quanto das oportunidades para estabelecer o Reino em lugares improváveis, como foi o caso daquela cidade marcada pelo comércio e pela imoralidade.
Qual é o contexto histórico e teológico de Atos 18?
O livro de Atos, escrito por Lucas, narra as viagens missionárias de Paulo e o avanço da igreja pelo Império Romano. Em Atos 18, acompanhamos o apóstolo deixando Atenas e seguindo para Corinto, capital da província da Acaia.
Segundo Kistemaker (2016), Corinto havia sido destruída por Roma em 146 a.C. e refundada como colônia romana em 44 a.C., por Júlio César. No tempo de Paulo, a cidade era um dos centros políticos e econômicos mais importantes da Grécia. Como explica Keener (2017), sua localização estratégica, entre dois portos, fazia dela um polo de comércio internacional, conectando Roma ao Oriente.
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Corinto, além de ser um centro comercial, era também símbolo de devassidão. O templo de Afrodite e a fama das prostitutas cultuais transformaram o nome da cidade em sinônimo de imoralidade. Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, Deus escolheu esse lugar como palco do avanço do Evangelho.
Teologicamente, Atos 18 demonstra o cumprimento das promessas de Jesus em Atos 1.8, sobre o testemunho cristão se expandir até os confins da terra. Mostra também como Deus conduz cada detalhe, desde o encontro com Priscila e Áquila até o encorajamento pessoal que Jesus dá a Paulo.
Como o texto de Atos 18 se desenvolve?
O capítulo se divide em quatro momentos que revelam o cuidado soberano de Deus e a perseverança dos missionários.
1. O que aprendemos com a chegada de Paulo a Corinto? (Atos 18.1-4)
O texto começa:
“Depois disso Paulo saiu de Atenas e foi para Corinto” (Atos 18.1).
Após o discurso no Areópago, Paulo se dirige à capital da Acaia. Corinto, com cerca de 200 mil habitantes, era um ambiente desafiador para a pregação do Evangelho.
Logo, ele encontra Áquila e Priscila, judeus expulsos de Roma por ordem de Cláudio. Como destaca Keener (2017), a expulsão dos judeus de Roma, em 49 d.C., provavelmente estava relacionada aos conflitos entre judeus e cristãos, como indica o historiador Suetônio.
Paulo, que compartilhava a profissão de fabricante de tendas, se une ao casal e trabalha com eles. Isso me ensina que o ministério pode, muitas vezes, ser sustentado pelo próprio esforço, sem deixar de ser eficaz. Como o próprio Paulo ensinaria depois, “os que pregam o evangelho que vivam do evangelho”, mas ele também decidiu trabalhar com as próprias mãos quando necessário (1 Coríntios 9.14).
Nos sábados, Paulo ia à sinagoga debater, tentando convencer judeus e gregos tementes a Deus.
2. Como Deus confirma o ministério de Paulo? (Atos 18.5-11)
Com a chegada de Silas e Timóteo, vindos da Macedônia, Paulo passa a se dedicar integralmente à pregação. Kistemaker (2016) explica que eles provavelmente trouxeram uma oferta das igrejas da Macedônia (2 Coríntios 11.9), permitindo que Paulo deixasse o trabalho manual por um tempo.
Mesmo assim, a resistência dos judeus cresce. Eles rejeitam a mensagem e insultam Paulo, que reage com um gesto simbólico:
“Caia sobre a cabeça de vocês o seu próprio sangue! Estou livre da minha responsabilidade. De agora em diante irei para os gentios” (Atos 18.6).
Esse gesto de sacudir as roupas remete a Ezequiel 33.4, onde o atalaia é considerado inocente se advertir o povo e este, ainda assim, se recusar a ouvir.
Diante da oposição, Paulo se instala na casa de Tício Justo, ao lado da sinagoga. Em um gesto surpreendente, Crispo, o chefe da sinagoga, crê no Senhor com toda a sua casa. Muitos outros coríntios também creem e são batizados.
Em meio a essa fase de desafios e conquistas, o próprio Jesus aparece a Paulo numa visão e o encoraja:
“Não tenha medo, continue falando e não fique calado, pois estou com você, e ninguém vai lhe fazer mal ou feri-lo, porque tenho muita gente nesta cidade” (Atos 18.9-10).
Essa promessa me emociona. Deus conhece os seus e garante a Paulo proteção e frutos, mesmo em um ambiente tão hostil como Corinto. Paulo permanece ali por um ano e meio, ensinando a Palavra de Deus.
3. O que aconteceu no tribunal de Gálio? (Atos 18.12-17)
A oposição dos judeus continua, e eles tentam usar o tribunal romano para calar Paulo. Levam o apóstolo até o procônsul Gálio, acusando-o de “persuadir o povo a adorar a Deus de maneira contrária à lei” (Atos 18.13).
Gálio, contudo, se recusa a se envolver em disputas religiosas internas dos judeus. Ele entende que o cristianismo, naquele momento, era visto como uma vertente do judaísmo, o que, conforme Keener (2017), o colocava sob a proteção legal da religião judaica no Império Romano.
Quando Gálio os expulsa do tribunal, a multidão se volta contra Sóstenes, o chefe da sinagoga, e o espanca. Kistemaker (2016) observa que esse episódio revela tanto o desprezo das autoridades romanas pelas disputas religiosas dos judeus quanto o ambiente instável de Corinto.
Apesar disso, a atitude de Gálio cria um precedente favorável à pregação do Evangelho, pois, na prática, o cristianismo não é proibido na Acaia.
4. Como o ministério de Apolo contribui para a igreja? (Atos 18.18-28)
Após um tempo em Corinto, Paulo segue viagem para Éfeso, acompanhado de Priscila e Áquila. Em Cencréia, ele raspa a cabeça, como cumprimento de um voto, mostrando que, embora cristão, ainda respeitava práticas judaicas quando apropriado.
Chegando a Éfeso, Paulo debate na sinagoga, mas parte logo, prometendo voltar se Deus permitir.
Enquanto isso, surge Apolo, um judeu de Alexandria, culto e conhecedor das Escrituras. Ele falava com fervor sobre Jesus, mas só conhecia o batismo de João. Priscila e Áquila o recebem e o instruem com mais exatidão no caminho de Deus.
Apolo segue para a Acaia, onde, com grande habilidade, refuta os judeus e prova pelas Escrituras que Jesus é o Cristo. Isso me ensina que o Evangelho é anunciado de formas diversas: por meio do trabalho de Paulo, do ensino paciente de Priscila e Áquila e da pregação eloquente de Apolo. Cada um contribui com seus dons e sua história para o avanço do Reino.
Que conexões proféticas encontramos em Atos 18?
Embora Atos 18 não cite diretamente profecias do Antigo Testamento, o texto aponta para o cumprimento de várias delas:
- O chamado aos gentios em Corinto cumpre o plano de Deus revelado a Abraão, de abençoar todas as nações (Gênesis 12.3).
- A visão de Jesus a Paulo ecoa a promessa de proteção e presença divina dada a líderes como Josué (Josué 1.9).
- O fortalecimento da igreja em meio à oposição cumpre a promessa de Jesus de que as portas do inferno não prevaleceriam contra a sua igreja (Mateus 16.18).
- O papel de Apolo, judeu helenista, demonstra como Deus cumpre seu propósito de levar o Evangelho tanto a judeus quanto a gentios, conforme as profecias messiânicas de Isaías 49.6.
O que Atos 18 me ensina para a vida hoje?
Esse capítulo me traz lições valiosas e práticas:
- Deus trabalha em ambientes desafiadores. Mesmo em Corinto, conhecida pela imoralidade, o Evangelho floresceu. Não devo subestimar o poder de Deus em lugares difíceis.
- O sustento do ministério pode vir de diversas formas. Assim como Paulo trabalhou com as próprias mãos, Deus pode usar meu trabalho secular para abrir portas para o Evangelho.
- Deus cuida dos detalhes. O encontro com Áquila e Priscila não foi acaso, mas parte do plano divino.
- O medo não deve me paralisar. Quando Paulo sentiu medo, Jesus o encorajou. Deus faz o mesmo comigo quando as dificuldades me cercam.
- O Evangelho avança por meio de diferentes pessoas. Cada um com seus dons contribui para a missão.
- A fidelidade a Deus não me isenta de oposição, mas Deus garante proteção e propósito em meio às lutas.
Como Atos 18 me conecta ao restante das Escrituras?
Vejo em Atos 18 a confirmação do plano de Deus ao longo de toda a Bíblia:
- O Evangelho alcançando os gentios cumpre as promessas a Abraão.
- A presença de Jesus com Paulo relembra o que Ele prometeu em Mateus 28.20.
- A oposição e o cuidado divino ecoam o que o próprio Jesus enfrentou e prometeu aos discípulos.
- O papel de Apolo mostra que o conhecimento e o zelo, quando guiados pelo Espírito, fortalecem a igreja.
- A igreja de Corinto, mesmo com seus problemas futuros, representa o triunfo da graça de Deus em um ambiente difícil.
Ao ler Atos 18, entendo que o Reino de Deus cresce em meio às adversidades. Deus chama, protege, envia e capacita os seus. E assim como fez em Corinto, Ele segue edificando a sua igreja hoje.
Referências
- KEENER, Craig S. Comentário Histórico-Cultural da Bíblia: Novo Testamento. Tradução: José Gabriel Said. Edição Ampliada. São Paulo: Vida Nova, 2017.
- KISTEMAKER, Simon. Atos. Tradução: Ézia Mullis e Neuza Batista da Silva. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2016.
- Bíblia Sagrada. Nova Versão Internacional. São Paulo: Sociedade Bíblica Internacional, 2001.