O Salmo 69 é um dos salmos mais citados no Novo Testamento, especialmente por sua profundidade messiânica e por retratar o sofrimento do justo. A autoria é atribuída a Davi, como indica o título hebraico. Ele escreveu em meio a uma intensa perseguição, marcada por injustiça, traição e vergonha. Ainda que o contexto exato não seja conhecido, a linguagem aponta para uma experiência dolorosa e pública de humilhação.
Este salmo é classificado como um “salmo de lamento individual”. Nele, o salmista clama por livramento, confessa seus pecados, denuncia seus inimigos e, por fim, reafirma sua confiança na justiça e fidelidade de Deus. O Salmo 69 também possui características proféticas, antecipando o sofrimento do Messias, como vemos em várias citações no Novo Testamento (João 2:17; Mateus 27:34; Atos 1:20).
Segundo Hernandes Dias Lopes, “o Salmo 69 é um retrato vivo da cruz. Mostra o Salvador sendo desprezado, traído, caluniado, ferido e abandonado. Mas também aponta para a sua vitória e glória” (LOPES, 2022, p. 585). Ele integra o conjunto dos chamados “salmos imprecatórios”, nos quais o salmista roga juízo contra seus inimigos, com base na justiça de Deus.
A teologia do Salmo 69 está centrada na fidelidade do servo sofredor, no zelo pela casa de Deus, na confiança inabalável mesmo em meio à dor e no juízo de Deus contra os ímpios. É um salmo que fala profundamente ao coração do aflito e aponta para o Evangelho com clareza, assim como Salmo 22 e Salmo 34.
Aflição do justo e súplica por socorro (Sl 69:1–3)
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“Salva-me, ó Deus!, pois as águas subiram até o meu pescoço” (v. 1)
Davi inicia com uma metáfora angustiante. Ele está afundando, sem chão, sendo levado pelas correntezas. O clamor é urgente. A imagem da água aparece com frequência na literatura poética hebraica para descrever o caos e o desespero (cf. Salmo 18:4).
Nos versículos seguintes, a exaustão física e emocional se tornam evidentes: garganta seca, olhos enfraquecidos e silêncio divino. Ao ler essas palavras, eu percebo como o sofrimento do justo pode se estender sem respostas imediatas, mas ainda assim há perseverança na oração.
Injustiça, vergonha e isolamento (Sl 69:4–12)
“Sou forçado a devolver o que não roubei” (v. 4)
Davi sofre acusações falsas. Ele é odiado sem motivo e tratado como culpado. Jesus também foi odiado sem causa, como declara João 15:25. O versículo 5 traz um reconhecimento de culpa, não em relação aos crimes citados, mas à sua natureza pecaminosa. Davi sabe que não é inocente diante de Deus, mesmo sendo alvo de injustiça humana.
Nos versos 6 a 8, o salmista expressa sua preocupação com o impacto do seu sofrimento nos outros. Ele teme escandalizar os que confiam em Deus. Ele também se sente excluído até por sua própria família. Esse sentimento reaparece no Novo Testamento, quando Jesus é rejeitado por seus próprios irmãos (João 7:5), assim como Davi foi ignorado por seus parentes em 1 Samuel 17:28.
O versículo 9 é messiânico: “pois o zelo pela tua casa me consome”. João 2:17 aplica essa frase a Jesus, quando Ele purifica o templo. É um versículo central no salmo, pois revela que o sofrimento é resultado direto da fidelidade a Deus. O justo sofre porque ama a santidade de Deus.
Oração por livramento (Sl 69:13–18)
“Mas eu, Senhor, no tempo oportuno, elevo a ti minha oração” (v. 13)
Davi não se entrega ao desespero. Ele continua buscando a Deus. Sua oração é fundamentada no amor e na misericórdia do Senhor. Mesmo em meio à lama, ele ainda crê que Deus pode resgatá-lo. Os versículos seguintes expressam esse desejo: ser tirado do atoleiro, liberto dos inimigos, salvo das águas. A linguagem aqui é semelhante ao clamor de Jonas nas profundezas do mar (Jonas 2).
O verso 17 é especialmente tocante: “responde-me depressa, pois estou em perigo”. Ao ler esse trecho, lembro que mesmo os homens mais piedosos enfrentaram momentos de desespero. A diferença está em onde colocaram sua esperança.
Solidão e traição (Sl 69:19–21)
“Puseram fel na minha comida e para matar-me a sede deram-me vinagre” (v. 21)
Estes versículos são novamente messiânicos. O verso 21 é citado nos evangelhos durante a crucificação de Jesus (Mateus 27:34; João 19:29). Davi descreve a dor de ser rejeitado, ridicularizado, ignorado em sua dor. Esse tipo de sofrimento também é descrito em Salmo 88, um dos textos mais sombrios da Escritura.
A figura do fel e do vinagre revela o desprezo profundo. Ninguém o consola. Isso antecipa o que o Cristo enfrentaria: solidão completa, sofrimento físico e zombaria pública. Eu aprendo que a dor do servo fiel não é desconhecida para Deus. Ela faz parte do caminho da obediência.
Rogos de juízo contra os ímpios (Sl 69:22–28)
“Despeja sobre eles a tua ira” (v. 24)
Aqui, Davi transita do lamento para a imprecação. Ele clama por justiça divina. Embora difíceis, esses versículos revelam uma teologia que reconhece Deus como Juiz. O salmista não se vinga com as próprias mãos, mas entrega os ímpios ao Senhor, como também fez Jeremias em Jeremias 11:20.
O verso 25 é citado em Atos 1:20 como profecia cumprida na queda de Judas Iscariotes. Isso mostra que Deus lida com o mal no tempo certo. O versículo 28 é impactante: “Sejam eles tirados do livro da vida”. A exclusão do rol dos justos aponta para juízo eterno. O salmo nos lembra que o pecado tem consequências espirituais graves, como também afirma Romanos 6:23.
Louvando em meio à dor (Sl 69:29–33)
“Louvarei o nome de Deus com cânticos” (v. 30)
Mesmo ainda em aflição, Davi adora. Ele proclama a grandeza de Deus com gratidão. Este é um dos momentos mais belos do salmo. A adoração não é apenas fruto de vitória, mas também de esperança. O verso 31 mostra que isso agrada mais a Deus do que sacrifícios formais, o que também é reforçado em Salmo 51:17.
O versículo 33 resume o caráter de Deus: “O Senhor ouve o pobre e não despreza o seu povo aprisionado”. Deus está atento aos fracos e oprimidos. Como cristão, eu aprendo que não preciso esconder minha fraqueza. É nela que Deus se revela forte, como Paulo escreve em 2 Coríntios 12:9.
Promessa de restauração (Sl 69:34–36)
“Pois Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá” (v. 35)
O salmo termina com uma visão escatológica. O sofrimento do justo não será em vão. Deus restaurará o seu povo. Haverá salvação para Sião, morada para os que amam o nome do Senhor. Essa promessa aponta para a consumação do Reino, quando o Messias reinará sobre um povo redimido, como vemos claramente em Apocalipse 21.
Cumprimento das profecias
O Salmo 69 é um dos mais messiânicos do Saltério. Diversas partes dele são aplicadas diretamente a Jesus:
- O verso 4 é citado em João 15:25 como uma profecia do ódio injustificado contra Jesus.
- O verso 9 aparece em João 2:17 durante a purificação do templo.
- O verso 21 é citado nos evangelhos (Mateus 27:34; João 19:28-29) na crucificação, quando Jesus recebe vinagre.
- O verso 25 é usado em Atos 1:20 sobre Judas Iscariotes.
Essas conexões mostram que o sofrimento de Davi, embora real, prefigura o sofrimento redentor do Cristo. Ele é o servo sofredor que foi desprezado, traído, sedento e rejeitado. Mas sua fidelidade trouxe salvação ao povo de Deus.
Significado dos nomes e simbolismos do Salmo 69
- Águas profundas – Representam o desespero e o caos. É uma imagem recorrente na Bíblia para sofrimento e ameaça de morte.
- Fel e vinagre – Simbolizam desprezo e zombaria. Na paixão de Cristo, são sinais do escárnio humano diante do sofrimento do Filho de Deus.
- Livro da vida – Representa a lista dos salvos. Ser riscado dele é uma imagem forte de condenação eterna, como em Apocalipse 3:5.
- Zelo pela tua casa – Denota a paixão por Deus e pelo culto. É também uma referência ao Messias e sua purificação do templo.
- Sião – Aqui simboliza o povo de Deus como um todo, não apenas Jerusalém. Aponta para a restauração final do Reino.
Lições espirituais e aplicações práticas do Salmo 69
- O justo também sofre injustamente – A fidelidade a Deus pode atrair perseguição e zombaria.
- Deus ouve os aflitos – Mesmo quando o socorro demora, a oração sincera chega aos céus.
- A adoração em meio à dor agrada ao Senhor – Louvar em tempos difíceis revela maturidade espiritual.
- Jesus cumpriu esse salmo em sua paixão – Ele foi odiado sem razão, teve sede e recebeu vinagre.
- A justiça pertence a Deus – O salmista entrega seus inimigos nas mãos do Senhor e confia no juízo divino.
- A restauração virá – O sofrimento do justo não é o fim da história. Deus reconstruirá Sião.
Conclusão
O Salmo 69 é uma joia teológica e espiritual. Ele revela as dores profundas de um servo fiel, injustiçado por amar a Deus, mas também aponta para o Cristo sofredor, que suportou a cruz por amor. Ao meditar neste salmo, eu compreendo que o sofrimento não anula a fidelidade de Deus, mas a revela de forma ainda mais poderosa. A esperança, o louvor e a justiça caminham juntos, mesmo nas noites mais escuras da alma.
Referências
- LOPES, Hernandes Dias. Salmos: O Livro das Canções e Orações do Povo de Deus, org. Aldo Menezes. 1. ed. São Paulo: Hagnos, 2022. v. 2.
- CALVINO, João. Comentário Sobre o Livro dos Salmos. 1. ed. São Paulo: Editora Fiel, 2009.